Após relembrar lutas, mulheres da ciência pedem reconhecimento

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Pioneirismo, coragem, vanguarda e humanidade. Essas são algumas das qualidades das mulheres que foram destacadas para receber o Prêmio Fiocruz – Mulheres de Ciência e Humanidades pela sua atuação científica em distintas áreas do conhecimento e seu papel na construção institucional. As homenageadas de 2015 foram a presidente da Comissão da Verdade da Reforma Sanitária (CVRS) Abrasco-Cebes, Anamaria Testa Tambellini e Sonia Gomes Andrade, do Centro de Pesquisas Gonçalo Moniz (CPqGM/Fiocruz Bahia). Este prêmio é concedido pelo Comitê Pró-Equidade de Gênero e Raça da Fundação e foi entregue durante o II Seminário Mulheres Fazendo Ciência, no dia 26 de março.
 
A palestra de abertura do seminário foi feita pela representante da Fundação Ford no escritório do Rio de Janeiro e ex-ministra Secretaria de Políticas para as Mulheres, Nilcéa Freire, que destacou a necessidade do país avançar na questão do combate à violência conta a mulher. “O fato de termos uma presidenta mulher não elimina do Brasil a vergonha de ser um dos países mais desiguais e com menor influência das mulheres nos parlamentos”, lamentou. Segundo Nilcéa, a violência contra a mulher, é o único tipo de agressão que, de certa maneira, é consentido pela sociedade, ou seja, que se alicerçou no consentimento social. 
 
A primeira homenageada do dia foi Sonia Gomes Andrade, do Centro de Pesquisas Gonçalo Moniz (CPqGM/Fiocruz Bahia). Ela possui doutorado em Patologia Humana pela Universidade Federal da Bahia e Pós-Doutorado pelo Instituto Pasteur de Lyon. Recebeu o título de Professor Emérito da Universidade Federal da Bahia. Durante a sua trajetória desenvolveu estudos em patologia experimental das doenças parasitárias, com ênfase na patologia e imunopatologia da Doença de Chagas e também trabalha em projetos sobre a patogenia da miocardiopatia crônica chagásica em diferentes modelos experimentais.
 
O prêmio de Sonia foi entregue pelo diretor Estadual da Fiocruz Bahia, Manuel Barral Neto. Em poucas palavras, ela agradeceu o carinho e disse estar muito feliz com a indicação que recebeu. Para homenageá-las, foi entregue uma escultura em cerâmica confeccionada especialmente para esta premiação a pedido da coordenadora do Comitê Pró-Equidade de Gênero e Raça, Elizabeth Fleury, pela artista Sonia Labouriau, de Minas Gerais. 
 
Quero flores
 
A pesquisadora aposentada da Fiocruz e da Universidade Federal do Rio de Janeiro e uma das fundadoras do Centro de Estudos da Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana (Cesteh/ENSP), Anamaria Testa Tambellini, foi a segunda homenageada do dia. Anamaria possui doutorado em Saúde Coletiva pela Universidade Estadual de Campinas e pós-doutorado pela Universitá Degli Studi da Perugia. Tem experiência na área de Saúde Coletiva e na década de 1990 liderou a equipe que realizou um dos mais importantes trabalhos de assessoria técnica e científica ao movimento sindicato, denunciando, estudando e comprovando a contaminação de trabalhadores por metais pesados e outras substâncias prejudiciais à saúde humana. 
 
Atualmente, ela é preside a Comissão da Verdade da Reforma Sanitária, que tem por objetivo investigar as violações de direitos humanos praticados por agentes do estado (1964 – 1985) contra trabalhadores da saúde (técnicos, pesquisadores, docentes, administradores e auxiliares), de modo a compartilhar as informações e conhecimentos produzidos com outras entidades e instituições que partilhem dos mesmos objetivos e princípios e com a sociedade brasileira, em geral, de modo a contribuir para um projeto de sociedade democrática e justa.
 
Em seu discurso de agradecimento, Anamaria falou da sua história e explicou o porquê de ela estudar tantas frentes: “Eu sou uma pessoa que anda, caminha, sou curiosa. Não tenho fidelidades a temas. Não sou uma cientista ortodoxa. Trabalho com coisas pelas quais eu me apaixono. Sinto anseio, uma grande vontade de saber e um prazer enorme pelo trabalho. Isso é que me move”, disse ela, dizendo ainda que é assim porque acredita na possibilidade de um mundo melhor do que o que vivemos hoje, que tenha equidade em todos os níveis, e acredita em um governo que leve em conta a necessidade de todos e cada um. O prêmio de Anamaria foi entregue pelo diretor da ENSP, Hermano Castro.  
 
Anamaria encerrou a homenagem lendo um poema de Giovanna Belle, uma lutadora sandinista, intitulada Oito de Março. Ela ressaltou que a leitura da poesia é para homenagear todas as mulheres que são merecedoras de todos os prêmios e, principalmente, de todas as flores. 
 
Oito de março
(Gioconda Belli
)
 
Amanhece com cabelos longos o dia curvo das mulheres. 
Que pouco é só um dia, irmãs, que pouco, para que o mundo acumule flores frente às nossas casas. 
Do berço onde nascemos à tumba onde dormiremos – toda a rota atropelada de nossas vidas – deveriam pavimentar de flores para celebrarmos. Que não nos façam como à Princesa Diana que não viu, nem ouviu as ruas floridas de prostadas de pena de Londres. 
Nós queremos ver e cheirar as flores.
Queremos flores dos que não são se alegram quando nascemos mulheres, em vez de homens;
Queremos flores dos que nos cortam o clitóris e dos que nos enfaixam os pés;
Queremos flores de quem não nos mandou à escola para cuidarmos de nossos irmãos e ajudarmos na cozinha;
Flores daquele que se meteu em nossas camas de noite e nos tapou a boca para nos violar enquanto nossas mães dormiam.
Queremos flores de que nos pagou menos pelo nosso trabalho mais pesado e de quem nos demitiu quando se deu conta de que estávamos grávidas.
Queremos flores dos que nos condenaram à morte obrigando-nos a parir mesmo com nossas vidas em risco.
Queremos flores daqueles que se protegem dos maus pensamentos nos forçando a usar véus e cobrir nossos corpos.
Dos que nos proíbem de sair às ruas sem a escolta de um homem.
Queremos flores dos que nos queimaram por sermos bruxas e dos que nos enceraram por sermos loucas.
Queremos flores dos que nos bate, dos que se embebedam, dos que bebem e gastam o dinheiro de nossa comida do mês.
Queremos flores das que fazem intrigas e levantam boatos.
Flores das que não mostram piedade para com suas filhas, suas mães e suas noras e das que carregam veneno no coração contra as do seu mesmo gênero. 
Então, muitas flores seria necessário para secar os pântanos úmidos, onde a água de nossos olhos faz lodo;
areia movediça, nos traçando e esculpindo, da qual, tenazes, uma a uma, teremos que surgir.
Amanhece com cabelos longos o dia curvo das mulheres. Queremos flores hoje! O quanto nos for de direito. O jardim do qual nos expulsaram.

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