Sibsa 2014: Carta de BH reforça interação entre a academia e o saber popular

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"Também sou uma daquelas que não sentou naquele banco, mas a vida ensinou a me portar como as outras pessoas". Com essas palavras simples, mas certeiras, a agricultora Lia, da Rede Ecologia de Rio da Prata, RJ, fechou a mesa de encerramento do 2° Sibsa, o Simpósio Brasileiro de Saúde e Ambiente, realizado em Belo Horizonte (MG). A fala resume o tom de um evento que, ao longo de três dias, reuniu mais de 600 pessoas com a intenção de compartilhar suas experiências de luta, estudos científicos e, acima de tudo, a esperança de vencer uma ordem social que obstrui a expansão da vida em nosso planeta.



Depois da fala de Lia e de outras integrantes de movimentos sociais, foi lida a Carta de BH, texto construído coletivamente durante o simpósio. O documento resume o que se viu e ouviu nas oficinas, mesas de discussão, filmes e palestras: "o avanço do capital, em suas mais diversas formas de exploração dos territórios e da vida, tem sido cruel, gerando doenças, morte e destruição." É o que encontramos num dos trechos da carta, lida ao vivo por Fernando Caneiro, da Abrasco: “Avaliamos que a violação dos direitos à vida digna tem sido acelerada e aprofundada pela inserção subordinada do Brasil à ordem capitalista internacional, na medida em que ecossistemas e territórios de vida das populações são abertos para a espoliação dos bens comuns, da biodiversidade e do trabalho por grandes corporações nacionais e transnacionais, produtoras de commodities agrícolas e minerais.” O documento destaca ainda a falta de políticas públicas fortes que combatam essa tendência: “O Estado assegura a legitimação simbólica desse modelo de desenvolvimento, pretensamente justificado pelo 'progresso' e a geração de empregos”.

Entre as propostas para o enfrentamento desse modelo, a que se destacou no 2° Sibsa foi a interação das ciências que nascem nas academias e laboratórios com o saber popular. Ainda segundo a Carta de BH, “o 2° Sibsa reafirma que a ciência emancipatória exige uma estreita articulação entre os saberes produzidos na academia e aqueles oriundos dos diversos grupos e movimentos sociais. Convocamos todos a se organizarem em resistência a este modelo e em defesa de políticas públicas que garantam direitos humanos e a vida”.

Hermano Castro, diretor da ENSP e presidente do simpósio, em sua fala de encerramento, fez um balanço positivo do evento. Para ele, se a segunda edição do Sibsa deixou claro, por um lado, os danos causados pelos avanços do capital, tanto no campo como nas cidades e florestas, por outro, evidenciou a grande vontade de lutar contra eles.

Na conferência sobre desenvolvimento socioeconômico e conflitos territoriais, realizada pouco antes da plenária de encerramento, o relato de Horácio Antunes de Sant'Ana Júnior criou um panorama consistente para essas lutas. O pesquisador da Universidade Federal do Maranhão, numa fala em nada carregada de ironia, lembrou que o grande problema do estado em que mora e leciona não é a falta de “progresso”. “O problema do Maranhão é o excesso de desenvolvimento, porque o desenvolvimento não traz qualidade de vida.” Para exemplificar, entre muitos outros casos, o da termoelétrica do Porto de Itaqui. “Quando anunciaram o empreendimento, disseram que ele geraria 1600 empregos. De fato, esses empregos foram criados na fase de construção da usina, mas hoje ela opera com 68 trabalhadores. O que sobra para a população, além dos pequenos serviços, como venda de balas e picolés na porta da fábrica, é a faxina”. E se esse modelo de desenvolvimento pouco deixa de benefícios, o mesmo não se pode dizer dos danos ambientais e sociais.

Quando os trabalhadores que chegam para a construção vão embora, ficam os chamados filhos da obra, nome que se dá aos meninos e meninas nascidos das relações ocasionais dos operários com mulheres locais. Além disso, há as consequências da poluição, que faz com que surja uma onda migratória ao contrário. É o caso de Piquiá de Baixo, onde uma siderúrgica que trabalha com a fase mais poluente da extração do ferro tornou a vida um inferno. “Crianças e animais morrem. A vida vai ficando inviável. A luta territorial se inverte: passa a ser uma luta pra sair.” Somados todos esses danos, o que se tem é um estado que a cada nova divulgação do IDH, o índice de desenvolvimento humano, disputa a lanterna do ranking com Alagoas e onde a violência tem tolhido a liberdade e a criação: “Todo mundo acompanhou o caso do presidio de Pedrinhas. Recentemente, por causa da violência, na UFMA, nós ficamos uma semana sem aulas. Um dos hábitos peculiares da população de São Luís, que é o de ficar conversando na porta das casas, no fim de tarde, está acabando. Basta uma moto surgir na esquina para as pessoas entrarem para as casas”.



Com todas as injustiças ambientais e sociais vividas por sua população, o Maranhão é apenas um entre muitos territórios afetados pelo avanço do capital. Ao longo das discussões intensas que marcaram o 2° Sibsa, o que também se pode concluir é que é a ordem global injusta que influi nos dramas vividos localmente. Numa era em que o mundo está interligado em rede e o conhecimento pode ser compartilhado por todos, agravam-se as contradições, muito bem expressas por Carlos Corvalán, da Opas, em uma das mesas do Sibsa: “Nosso planeta vive o melhor e o pior dos tempos. Vivemos uma prosperidade inédita, mas não é para todos”. Um panorama que pode parecer sombrio, mas contra o qual é possível achar ânimo para lutar na fala de gente como a agricultora Lia, que não frequentou a escola mas aprendeu com a vida, o Cacique Babau, aplaudido por mostrar como a saúde está diretamente ligada ao espaço em que se vive, ou a militante Valquiria Lima, para quem a cor do semiárido é verde - tal qual a esperança que Luís Gonzaga via se espalhar dos olhos de sua Rosinha para a plantação.

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