Por uma epistemologia da visão: debate envolve academia e indígenas

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* Pedro Leal David

"Existem dois eixos que regem a saúde, o espiritual e o carnal. O carnal é oriundo do espaço. Quando nós expulsamos das nossas terras os grandes fazendeiros e caçadores, caiu a mortalidade infantil, a desnutrição e nenhum jovem menor de 50 anos morreu na aldeia". Essa é visão de saúde de Rosivaldo Ferreira da Silva, mais conhecido como Cacique Babau, da tribo dos Tupinambás. A fala dele foi a mais aplaudida da mesa redonda A função social da ciência, ecologia de saberes e outras experiências de produção, apresentada durante o 2º Simpósio Brasileiro de Saúde e Ambiente. Falando ao lado do pesquisador da ENSP Marcelo Firpo e de Tadeu Melo, da Universidade Federal do Acre, a experiência de vê-lo de cocar dividindo o microfone com os cientistas ofereceu ao público, na prática, aquilo que os organizadores vem propagando como a grande novidade deste simpósio: a interação entre o saber popular e o acadêmico.

Junto aos pesquisadores, a fala do cacique se manteve firme. Dono de um conjunto de conceitos próprios, nascidos da experiência e do saber dos antepassados, Babau falou, por exemplo, o que acha da depressão. "É a doença espiritual que eu considero mais grave na humanidade. Tem aquela que deixa a pessoa apática, tem a intermediária e aquela em que a pessoa fica agressiva, que chamam de loucura. Você pega alguém que está com problema evolutivo, considera louco e dá remédio. Você acaba matando essa pessoa". Para exemplificar, o tupinambá contou a história de gente da sua tribo que estava adoecida, por viver na periferia de uma grande cidade. "Fui de carro buscar essa pessoa a trouxe pra aldeia. Imediatamente ela ficou curada. E isso serve pra vocês também: às vezes, você está doente, em vez de beber remédio, você tem que olhar para esse ‘brasilzão’ e tentar achar um lugar onde você vai ficar bem". Entre os aplausos e risos do público, foi possível sentir um leve constrangimento, como quando se está diante de uma verdade óbvia, mas incômoda.

O convívio com esse tipo de saber não é uma novidade para Tadeu Melo. O pesquisador da Universidade Federal do Acre relatou, na mesa, as ações que sua universidade realiza para incorporar a ciência do povo à academia. A resistência, quase sempre, aparece do lado do saber institucionalizado. Tadeu contou o caso de um remédio feito a partir do Vinho de Jatobá, que entre outras propriedades, serviria como afrodisíaco, uma espécie de ‘viagra natural’. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) não deu permissão para a comercialização do suposto remédio. "Nós perdemos a pesquisa e a comunidade perdeu ânimo". As dificuldades que o pesquisador enfrenta em seu cotidiano não param por aí. A falta de equipamentos para realizar testes mais específicos torna inevitável, muitas vezes, as parcerias com o setor privado.

Esse é um dos pontos críticos para a construção de um conhecimento emancipado e emancipatório, segundo o pesquisador da ENSP Marcelo Firpo. Para ele, a presença do setor privado na academia gera conflitos de interesses e a independência das pesquisas sai perdendo. Se de um lado o capital mostra explicitamente sua força ao imiscuir-se na universidade por meio das parceiras público-privadas, há outras ações mais dissimuladas e difícil detecção. "Muita gente na educação popular usa, por exemplo, o conceito de economia verde, acriticamente. "Trata-se de uma solução de mercado que mantém os problemas, os interesses empresariais e despreza os conflitos ambientais e as desigualdades", afirmou o pesquisador.

O entendimento de que o uso imoderado da natureza é um problema não é novo. Desde a década de 60 já se discutia a questão ambiental em livros como The problem of social cost, do economista inglês R.H Coase, e em The tragedy of the commons, ensaio do ecologista americano Garrett Hardin. Embora reconheçam o problema do esgotamento das fontes primárias a partir de sua exploração desmedida, o que se propõe nesses trabalhos é precificar toda a natureza para que ela faça parte dos mecanismos reguladores do mercado. "Essa ideia de liberalizar a natureza precisa ser discutida pela saúde coletiva para que não caiamos num conjunto de mecanismos empresariais que se espraiam pela academia". Além desses obstáculos, também concorrem para dificultar a construção de novas formas de saber um modelo de ciência que diante da falta ‘nexo causal’ acabam recuando e excluindo de sua área de atuação situações de risco que demandam atenção.
 

Embora os desafios sejam enormes, Marcelo Firpo vê surgir novo ânimo para enfrentá-los a partir do agenciamento com os saberes populares. "Nós estamos vivendo um momento de crise, mas ao mesmo tempo interessante pela possibilidade crescente de construção de novas abordagens teóricas". Geografia crítica, ecologia política, economia ecológica e estudos pós-coloniais, conceito do sociólogo português Boaventura de Souza Santos, são algumas das áreas que emergem. Na prática, a proposta é construção de uma epidemiologia popular, a pesquisa-ação e pesquisa intensiva em participação comunitária, a ampliação da vigilância em saúde de caráter local e da ação de agentes comunitários e da saúde da família, criando-se bases para novos enfoques de atenção primária. Segundo Firpo, é preciso combater as epistemologias da cegueira e se abrir para a epistemologia da visão: "Mais do que produzir enfrentamentos, o que devemos é liberar a criatividade humana", concluiu em sua fala o pesquisador da ENSP.

 

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