Muito além dos 'novos' mantras

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A cena é clássica e já foi parodiada muitas vezes: diante de uma plateia atenta, um sujeito versado nos temas da administração empresarial prescreve as fórmulas do sucesso. Tal como uma roupa da moda, usa palavras e expressões que variam com os tempos, mas não tão rápido que não possam virar clichê: "Responsabilidade social da empresa", "respeito ao consumidor", "mercado, mercado, mercado". Essas frases de efeito marcaram presença na palestra de Wagner Siqueira, presidente do Conselho Regional de Administração do Rio de Janeiro, mas dessa vez estavam no banco dos réus.
 
Falando sobre os desafios da gestão numa instituição de ensino e pesquisa em saúde pública, numa das mesas que celebraram os 60 anos da ENSP, Wagner criticou a influência que o setor privado tenta exercer sobre as universidades e a ciência. (Sob esse aspecto, logo de início, o administrador destacou a Fiocruz como uma exceção, no mundo inteiro). "Existe uma elite que circula entre ONGS, Governo e Academia para fecundar ideologicamente esses setores". A gestão pública estaria, portanto, colonizada pelo mercado. 
 
O que se assiste, segundo Wagner, é o surgimento de um pensamento único, com o consumo no centro de tudo. Hoje, por exemplo, a clássica equação liberal, em que a demanda geraria a oferta. Cada vez mais o que se quer é agir sobre o desejo de potenciais compradores. Nesse sentido, os discursos também se adaptam. O respeito ao cidadão vai sendo substituído pelo “respeito ao cliente”, tão propagado, mas que nada mais é do que o respeito ao poder de compra das pessoas. “Responsabilidade social”, também em alta, surge como uma resposta que as corporações encontraram para a luta de classes ainda no século XX.
 
 
E se as frases de efeito tentam dar um ar moderno às ações das corporações em dominar a vida democrática, o antídoto, para Wagner, vem de duas velhas palavras: instituição e costumes. "Discute-se estado mínimo e estado máximo, No Brasil, mas não se discute as instituições". Para o palestrante, mesmo a educação, que todos reconhecem como um dos nossos pontos críticos, não sobrevive sem o fortalecimento delas: "A pessoa se forma, se educa, mas vai acaba parando numa instituição que a deforma".  Quanto aos costumes, Wagner lembrou que a modificação dos maus hábitos que caracterizam muitos setores da vida nacional leva tempo, mas citou países em que mesmo com maus costumes, o fortalecimento das instituições garantiu a correção de rumos. Ao encerrar sua fala, o administrador criticou também o fato das reformas, no Brasil, surgirem apenas em momentos de crise.

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