ENSP atua na prevenção do plágio acadêmico

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Segundo a professora do Programa de Educação, Gestão e Difusão em Biociências do Instituto de Bioquímica Médica (IBqM) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que realizou seu projeto de pós-doutorado, financiado pela Faperj, em integridade em pesquisa na UFRJ, Sônia Vasconcelos, “o plágio acadêmico se configura quando há a apropriação de ideias, processos, resultados ou palavras de outro autor como se fossem daquele que os utilizou”.
 
O crescimento dessa prática meio científico, ainda de acordo com a pesquisadora, já pode ser comprovada por meio de estudos recentes, cujos levantamentos apontam que a identificação de má conduta, entre elas, a ocorrência de plágio, triplicou entre 1970 e 2007, tendo passado de menos de 0,25% para 1%, em publicações indexadas no Medline, base de dados de produções da literatura internacional da área médica e biomédica. Ainda segundo Sônia, em palestra na ENSP, entre os anos de 1988 e 2008, o percentual de casos de plágio associados a retractions (cancelamento de publicações) era três vezes maior quando comparados a outros tipos de má conduta, como a fabricação de dados, por exemplo.
 
A discussão sobre o plágio na academia levou a Escola Nacional de Saúde Pública a investir na aquisição de um software que atua na sua prevenção. O sistema Ephorus verifica trabalhos e dissertações, comparando-os a milhares de fontes da internet, e identifica textos que incluem palavras, frases ou parágrafos reorganizados. Para explicar como funciona o sistema, a vice-diretora de Pesquisa e Desenvolvimento Tecnológico da ENSP, Sheila Maria Ferraz Mendonça de Souza, falou ao Informe ENSP sobre como vem sendo usado o software na Escola, as adaptações feitas para contemplar os trabalhos produzidos na Fiocruz, as coordenações que estão aptas a usá-lo e uma das principais questões que envolvem a coibição do plágio: o primor pela qualidade dos trabalhos. A editora do Cadernos de Saúde Pública, Marília Sá Carvalho, comentou como o sistema pode ser usado pelo periódico. Confira a entrevista.
 
Informe ENSP: O que levou a Escola a investir na aquisição do Ephorus?
 
Sheila Mendonça: A discussão sobre o plágio vem crescendo na academia, tanto pela demanda surgida na própria instituição, com o desligamento ou reprovação de alunos por apresentarem teses ou projetos que evidenciavam claramente a cópia, ou pela discussão com editores internacionais de periódicos, que mencionaram essa prática como um problema atual das publicações.
 
O plágio pode ser reconhecido pela cópia não autorizada de uma figura, ou a sua repetição, sem crédito, até a reprodução de artigos na íntegra, ideias ou processos de uma pessoa como se fosse a própria autora. E temos observado que essas más práticas vem se repetindo. As instituições já vem trabalhando com mecanismos para rastrear esse tipo de situação. Existem alguns programas que analisam trechos de trabalhos repetidos e a direção anterior achou que seria oportuno buscar um programa, reconhecido e validado internacionalmente, como uma boa ferramenta de prevenção ao plágio. A negociação foi conduzida pela professora Margareth Portela e contratamos as licenças do Ephorus. 
 
Informe ENSP: Como foram os primeiros testes do sistema?
 
Sheila Mendonça: O sistema é gerido por uma empresa internacional e, para ser usado na ENSP, necessitava ser adequado às bases de dados nacionais. Quando passamos a ter as senhas e o programa foi liberado para os primeiros testes, tivemos que resolver algumas dificuldades. O Ephorus faz a busca em bases de dados. Como a versão original do programa usava bases internacionais, poucos trabalhos em português eram encontrados nessa situação. A partir daí, tivemos um tempo de negociação para a empresa incluir bases como a Arca, o Banco de Teses da Capes, além das bases Lilacs e Scielo, ou seja, fontes que não eram contemplados pelo programa. 
 
Após operacionalizarmos o uso dessas bases, fizemos os primeiros testes aqui na Vice de Pesquisa e no Cadernos de Saúde Pública. As senhas de acesso já estão disponíveis mediante demanda e a possibilidade de uso do programa está sendo disseminada na Escola.
 
Marília Sá Carvalho: Usamos o programa no CSP esporadicamente, para análise de casos específicos que surgem em nossa rotina. Quando algum consultor ou editor da área reconhece o que está sendo publicado, nos alerta para possibilidade de possível plágio ou publicação redundante. Estamos, na verdade, em uma fase de testes com o programa, buscando uma forma de adaptar sua utilização à nossa rotina diária de avaliação. É uma ideia da revista tornar habitual o uso de programas para a verificação de plágios, no entanto, ainda não temos a definição de quando e como será esse fluxo.
 
Informe ENSP: Como o sistema reconhece o plágio? De que forma a distribuição de senhas será feita na Escola?
 
Sheila Mendonça: O sistema de prevenção de plágio é completamente baseado na Web. Não há necessidade de instalar software. Ao iniciar a sessão do programa com um texto em PDF, por exemplo, ele faz a busca em todos os bancos que dispõe e, ao encontrar textos semelhantes, assinala o trecho em repetição. O sistema ajuda a detectar a taxa de repetição de um texto, e isso pode sinalizar duas coisas: uma é o plágio em si, quando uma pessoa apresenta o trabalho de outra como sendo dela própria. Outro ponto é a avaliação da originalidade de um trabalho, o que é muito importante para os periódicos. 
 
Contratamos 1500 senhas de acesso, ou seja, podemos usá-lo de forma bastante abrangente com os pesquisadores da Escola, membros de banca e demais interessados como o EAD, a CCI, a pós-graduação. Temos três anos de contrato, que naturalmente pode ser renovado. Neste início de aplicação do programa pelos profissionais da ENSP, cerca de 50 pesquisadores já receberam e começaram a utilizar sua senha de acesso, além, é claro, do Cadernos de Saúde Pública. 
 
Informe ENSP: O sistema de prevenção de plágio tem o intuito de corrigir e reprovar o erro, mas acredito que ele traga também uma preocupação com a qualidade dos trabalhos. Até que ponto seu uso pode auxiliar a originalidade e qualidade das publicações?
 
Sheila Mendonça: Ainda não cabe à Escola determinar de que forma os setores irão usar o sistema. Priorizamos a contratação do software, que é uma despesa que se justifica, e também é uma forma de recuperar boas práticas - que infelizmente foram se perdendo. A contratação se justifica pela importância e seriedade que vai dar ao processo, reforça a seriedade, a importância das nossas publicações, enfim, legitima os nossos produtos. A utilização do programa não busca apenas constatar as falhas. Procura dar um salto de qualidade nas publicações, reprimir o erro e evitar alguns constrangimentos. 

1 comentário para "ENSP atua na prevenção do plágio acadêmico"

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  1. EDUARDO S. PONCE MARANH?O

    Se procurar plágio na Ensp e Fiocruz em geral vai encontrar !!! Apliquem sistematicamente o software ! Existem vários e existem na Internet. Façam como as universidades inglesas e americanas ! Todos os trabalhos e pesquisas sem exceção passam por busca de plágio. E lá eles encontram que cerca de 30% de plágio descarado !!! Como será aqui ??? Alguém tem dúvida da resposta???

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