Sites sobre dengue não alcançam critérios de qualidade

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Isabela Schincariol

 

“A internet está diminuindo o ‘desequilíbrio estável’ da relação médico-paciente estabelecida desde Hipócrates – estudioso grego considerado pai da medicina –, em que o médico sabe tudo e o paciente não sabe nada”, disse o coordenador do Laboratório Internet, Saúde e Sociedade (Laiss), do Centro de Saúde Escola Germano Sinval Faria (CSEGSF/ENSP), André Pereira, durante a apresentação dos resultados da avaliação sobre a qualidade das informações disponíveis em 18 sites a respeito da dengue. Apenas cinco páginas eletrônicas que participaram da avaliação obtiveram mais de 50% de resultados positivos quanto aos critérios estabelecidos, e nenhum dos sites alcançou 70% dos critérios relacionados à abrangência, técnica, interatividade, legibilidade e acurácia. Sobre a proposta de criação de um Selo Fiocruz para atestar a qualidade de informação em sites de saúde, o diretor da ENSP, Hermano Castro, afirmou que a iniciativa deve ter foco nas instituições do setor público, tendo como objetivo principal o empoderamento do SUS. 

Esse é um estudo inovador, pois contou com a participação do sujeito na sua concepção, elaboração e avaliação. Além disso, os resultados divulgados - disponíveis na íntegra na página eletrônica do Laiss/CSEGSF/ENSP - são referentes às notas obtidas em cada um dos critérios e indicadores propostos pela pesquisa. Segundo André Pereira, a transparência é uma necessidade premente, e a iniciativa de colocarmos toda a metodologia e os resultados disponíveis aos interessados segue essa linha. Ao todo, 20 moradores residentes das comunidades do Complexo de Manguinhos e 10 médicos, envolvendo residentes e pesquisadores da área de dengue da Fiocruz, auxiliaram e participaram da pesquisa. Além dos resultados e metodologia, todos os critérios e indicadores desenvolvidos estão disponíveis on-line e podem ser aplicados em outras páginas.

Segundo André, a pesquisa tem forte conotação social, não apenas pelo envolvimento dos moradores, mas por seu resultado, que é o selo de qualidade. “Se ele vier a ser aprovado pela Fiocruz, terá grande importância para a sociedade brasileira, pois, no nosso entender, informação é fundamental para a promoção da saúde”, defendeu o coordenador.

O vice-presidente de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde da Fiocruz, Valcler Rangel, presente durante a apresentação, lembrou da relevância da discussão desse tema em uma instituição de ciência, tecnologia e saúde. Para ele, a Fiocruz deve, sim, conceder um selo de qualidade. Porém, disse Valcler, “a instituição deve fazer isso de forma compartilhada com outras instituições de ensino e pesquisa, porque esse selo precisa também estar permanentemente sendo validado”, alertou o vice-presidente.   


O diretor da ENSP ressaltou que é preciso ter muito cuidado com critérios. Ele citou o exemplo da uma mina de amianto brasileira que mata milhares de trabalhadores todos os anos e possui um certificado internacional e um selo verde. “Ela atende critérios básicos, porém frios. É preciso prestar atenção. Esse projeto terá todo o apoio da ENSP, mas precisamos trabalhar com foco no empoderamento do Sistema Único de Saúde (SUS). Esse é o papel da Fiocruz”, comentou ele defendendo ainda que, tendo um selo de qualidade, nós não devemos certificar empresas privadas. “Devemos trabalhar com instituições do setor público, o que significa melhorar a qualidade da atenção do nosso sistema de saúde”, encerrou Hermano.    

Pesquisa utilizou cinco parâmetros para avaliar sites

A escolha dos sites a serem avaliados respeitou três critérios. O primeiro deles foi com base em pesquisas feitas no maior site de buscas do mundo hoje: o Google. Dois bolsistas integrantes do projeto pesquisaram, em 40 computadores diferentes de lan houses localizadas nas comunidades de Manguinhos e da Maré, os dez primeiros sites encontrados na busca da palavra dengue. O resultado foi: Aja Brasil, Wikipédia, Combate à Dengue, Minha Vida, Dráuzio Varela, Sua pesquisa, Brasil Escola, Secretaria Estadual de Saúde do Paraná, G1 e Ministério da Saúde.

O segundo critério utilizado foi inserir na pesquisa os sites brasileiros sobre dengue que receberam o selo de qualidade da organização não governamental suíça Health On Net (HON) - uma das mais tradicionais instituições existentes no mundo. O terceiro deles foi a seleção de fontes de informação mantidas por entidades do governo, totalizando três sites. Com os 18 sites a serem estudados definidos, todos os seus conteúdos passaram por avaliações em cinco categorias diferentes: técnico, interatividade, abrangência, acurácia e legibilidade.

Em relação à técnica, analisou-se a atribuição de responsabilidade e referência pela informação oferecida. Já a interatividade avaliou as ferramentas e meios de comunicação do site com seus leitores, como o Fale Conosco, e a interligação com redes sociais. Além disso, também reviu estruturas básicas de navegação e avaliou a aparência da página tanto pelo usuário como pelos profissionais. O critério de abrangência adotou o sentido e o significado desse critério na íntegra. Como a dengue é uma doença transmissível, foi considerado abrangente o site que apresentou informações sobre prevenção, transmissão, sintomas, diagnóstico e tratamento.

Já no que se refere à acurácia, o critério foi definido pelo grau de concordância entre a informação oferecida e a melhor evidência ou a prática médica geralmente aceita. Esse critério foi avaliado somente pelo grupo de médicos. O quinto e último critério de avaliação dos sites verificou a capacidade do texto ser compreensível por um leigo, tendo sido avaliado somente pelo grupo de moradores de Manguinhos.

André ressaltou que mais dois temas já estão sendo estudados para futura pesquisa de avaliação de sites. O primeiro deles é a tuberculose, que contará com a parceria do Centro de Referência Professor Hélio Fraga (CRPHF/ENSP), e o segundo é o aleitamento materno, que, provavelmente, será desenvolvido em conjunto com o Instituto Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz).

 

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