Roda de estudantes discute rumos da saúde no país

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Tatiane Vargas

No estilo freiriano, o terceiro dia (5/9) das comemorações dos 59 anos da ENSP reuniu pesquisadores, alunos e convidados para uma roda de conversas. A atividade, proposta pelo Fórum de Articulação com os Movimentos Sociais e coordenada pelo Fórum de Estudantes da Escola, reuniu dezenas de pessoas que formaram um grande círculo na Tenda da Saúde e debateram temas como serviço civil obrigatório na saúde, Programa Mais Médicos, formação em saúde, desafios do SUS, interiorização da medicina, entre outros. A dinâmica participativa desenvolvida possibilitou uma ampla discussão com divergência de opiniões e estimulou o encaminhamento de algumas proposições, entre as quais a estruturação de uma agenda permanente de debates.



O encontro começou com a leitura do poema "Crônicas e agudas", de Lucas Bronzatto, membro do Fórum de Estudantes da ENSP. Os membros do Fórum propuseram a leitura de frases emblemáticas do sanitarista Sergio Arouca para aquecer o debate. Em seguida, foram discutidas duas questões: os desafios e possibilidades que se apresentam aos profissionais de saúde e o papel dos profissionais no atual cenário. Os presentes se manifestaram a favor ou contra o programa do governo federal Mais Médicos, tomando como ponto de partida a formação em saúde, a interiorização do trabalho de saúde e as relações de trabalho.

Andrezza Piccoli, membro do Fórum de Estudantes da Escola, argumentou que a ideia não seria pensar apenas no âmbito do Programa Mais Médicos, mas também no Revalida e na fala da presidenta Dilma Rousseff sobre a obrigatoriedade do serviço civil público. Propostas as questões, a dinâmica da roda tomou forma, e os participantes começaram a se manifestar. No âmbito da formação em saúde, discutiu-se a cultura dos alunos de medicina, que, hoje, entram nas faculdades públicas e privadas pensando no atendimento particular, e não no serviço público de saúde. “Falta história e cultura brasileira na formação em saúde atualmente”, expôs um participante. A preocupação com a formação de diferentes etnias e culturas existentes em nosso país também foi considerada.

Outro assunto debatido foi a mercantilização da medicina atribuída ao modo de produção na formação médica. Um participante afirmou que “o reclame do Programa Mais Médicos é legítimo, mas não devemos particularizar o problema. Precisamos pensar como está o SUS atualmente e comparar o SUS que temos hoje com o que queremos amanhã. O Mais Médicos não ocupa o lugar do médico brasileiro, e sim o lugar ao qual ele não quer ir. Precisamos resgatar a história de lutas e fortalecer o SUS com novas ideias e propostas”.

Para Eduardo Stotz, coordenador do Fórum de Articulação com os Movimentos Sociais, a construção do SUS acabou, mas a luta por ele não. “É preciso começar uma luta profunda e ampla para reverter o que o SUS se tornou. Os profissionais da saúde proporcionaram conquistas ideológicas para o SUS. A luta deve continuar e precisamos retomar a discussão da estatização da saúde”, disse ele. Ainda no âmbito do Programa Mais Médicos, um participante citou que, para a população, o maior problema na saúde é a falta de médicos. “Isso, em nosso país, é algo antigo, vem desde antes do SUS. Neste momento, a discussão volta às ruas e o governo precisa olhar para a saúde. Assim, surge o programa, como uma resposta da presidenta aos anseios da população”, considerou.

A discussão continuou com uma análise da atual conjuntura da saúde, o papel do profissional de saúde e a interiorização da medicina. Sobre essa última questão, uma participante afirmou que o SUS é muito importante em outras regiões do país, ressaltando que há lugares nos quais o Sistema é a única coisa que a população tem. Nesse sentido a participante argumentou que é preciso trazer o povo para a luta dos profissionais, além de promover a articulação entre a formação na saúde e o processo de formulação de políticas públicas. “Às vezes, ficamos muito fechados no setor da saúde e não pensamos que muitas questões são intersetoriais por natureza”, ponderou.

Dando prosseguimento à dinâmica acalorada da roda, os participantes debateram sobre o corporativismo da categoria médica, o contexto político atual e a janela de oportunidades aberta com as manifestações populares de 2013, além da política de valorização da carreira pública em saúde e o papel dos meios de comunicação na pauta nesse setor. Por fim, foi estimulado o encaminhamento de algumas proposições como a estruturação de uma agenda permanente de debates com a dinâmica participativa, a construção de uma nota de repúdio ao racismo e a xenofobia sofrida pelos médicos cubanos em sua chegada ao Brasil e uma carta sobre o Programa Mais Médicos relacionada ao contexto político atual. 

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