Dez anos sem Sergio Arouca

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Nesta sexta-feira (2/8), faz dez anos que a saúde pública brasileira e mundial perdeu um de seus maiores nomes: Sergio Arouca. O sanitarista, morto aos 61 anos em decorrência de um câncer, é reconhecido por sua produção científica e a liderança conquistada na construção do Sistema Único de Saúde (SUS). Foi presidente da Fiocruz em 1985, momento marcado pela democratização da Fundação, professor concursado da Escola Nacional de Saúde Pública, além de chefe do Departamento de Planejamento da ENSP. A tese de doutorado de Arouca, intitulada O dilema preventivista: contribuição para a compreensão e crítica da medicina preventiva, forneceu fundamentos teóricos estruturantes para a constituição da base conceitual da saúde coletiva. Em seu aniversário de 49 anos (2003), a ENSP agregou o nome de Arouca ao seu, tornando-se Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca.

Arouca nasceu em Ribeirão Preto (SP) e formou-se médico, em 1966, pela Universidade de São Paulo (USP). Em sua vida acadêmica, buscou vincular-se sempre com as propostas de democratização da sociedade brasileira na defesa de que todo cidadão tenha direito à saúde, entendida não só como assistência médica, no momento adequado e com a qualidade necessária, mas também como uma série de condições para que a população não adoeça: reforma agrária, educação, lazer, liberdade, habitação digna, transporte etc.

O sanitarista foi um dos principais teóricos e líderes do chamado “movimento sanitarista”, que mudou o tratamento da questão da saúde pública no Brasil. A consagração do movimento veio com a Constituição de 1988, quando a saúde tornou-se um direito inalienável de todos os cidadãos, como está escrito na Carta Magna: "A saúde é direito de todos e dever do Estado".

Também teve uma atuação internacional. Quando foi consultor da Opas/OMS, contribuiu diretamente no planejamento do sistema público nacional de saúde da Nicarágua e participou de diversos outros projetos estratégicos da Organização, incluindo trabalho de consultoria no México, Colômbia, Honduras, Costa Rica, Peru e Cuba.
 

 

Democratização da Fiocruz

Durante sua gestão, Arouca preocupou-se com a democratização da Fiocruz, recuperando a associação de funcionários e promovendo eleições diretas para a diretoria da Fundação. Modernizou a administração, com o estabelecimento de mecanismos de gestão colegiada e participativa e nomeação de diretores eleitos pelas unidades. Também coube a ele a criação do Conselho Deliberativo da Fiocruz como instância máxima de poder e a inauguração do Centro de Estudos da Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana (Cesteh/ENSP).

Arouca recuperou o prestígio da Fundação no campo da pesquisa científica e do desenvolvimento tecnológico, o que a notabilizou por ter sido a instituição de ponta na formulação e discussão da política brasileira de saúde. Presidiu a 8ª Conferência Nacional de Saúde, em 1986, a primeira que conclamou o usuário a debater o tema. Nesse período, foram realizadas pré-conferências em todos os estados. Os resultados da conferência subsidiaram o texto da saúde na Constituição Federal, em 1988. Como presidente da Fiocruz, reintegrou os dez cientistas cassados pela ditadura militar, no episódio conhecido como "Massacre de Manguinhos".

Foi também, em 1987, secretário de Estado da Saúde do Rio de Janeiro. Nessa condição, foi escolhido, por unanimidade, pela plenária de entidades de saúde para apresentar a defesa da emenda popular apresentada à Assembleia Nacional Constituinte. Ocupou a Presidência da Fiocruz até abril de 1988, quando pediu exoneração para concorrer como vice-presidente da República na chapa do PCB, com Roberto Freire. Candidatou-se, ainda, a vice-prefeito do Rio de Janeiro, na chapa de Benedita da Silva. Arouca foi deputado federal por oito anos e ocupou diversos cargos em comissões de saúde, ciência e tecnologia, sempre na defesa da modernidade e interesse do trabalhador. No início da gestão do prefeito Cesar Maia, em 2001, Arouca foi secretário municipal de Saúde do Rio.

O sanitarista foi coordenador do programa de saúde de Ciro Gomes (PPS), na eleição para a presidência da República em 2002 e, no segundo turno, se incorporou à campanha de Lula. Assumiu, em janeiro de 2003, a Secretaria de Gestão Participativa do Ministério da Saúde e foi nomeado para a coordenação-geral da 12ª Conferência Nacional de Saúde e para ser o representante do Brasil na Organização Mundial de Saúde (OMS). Era presidente do PPS-RJ.

(* Com informações da Agência Fiocruz de Notícias)

ENSP Sergio Arouca

Em 5 de setembro de 2003, quando comemorou seus 49 anos com uma homenageando ao professor e ex-presidente da Fiocruz Sergio Arouca, a ENSP adicionou o nome do sanitarista ao da Escola. A homenagem partiu do então coordenador de Desenvolvimento Institucional e Gestão da ENSP, Pedro Barbosa. A solenidade foi realizada no auditório térreo da Escola com as presenças do presidente da Fiocruz, Paulo Buss; do diretor da ENSP, Jorge Bermudez; do vice-diretor da ENSP, Antônio Ivo de Carvalho; do representante da Opas no Brasil, Jacobo Finkelman; do coordenador de Pós-Graduação da ENSP, Adauto José; da diretora da Asfoc, Rita Mattos; e de Pedro Barbosa.

Depoimentos

Para marcar os dez anos sem Sergio Arouca, o Informe ENSP recolheu depoimentos de profissionais e amigos que compartilharam suas trajetórias com Sergio Arouca. Confira.

Paulo Gadelha – presidente da Fiocruz

“Muitos momentos de minha vida foram marcados pelo convívio com Sergio Arouca, tanto de natureza pessoal como no campo da política. No campo pessoal, estabelecemos uma relação muito próxima e amiga, com alguns episódios interessantes. Na participação política e na militância do movimento de médicos residentes e, em seguida, do movimento de renovação médica, chamado Reme, eu tinha uma trajetória independente. Depois, participei do processo de constituição do PT, e Arouca era, naquela época, a grande liderança do campo da saúde e vinculado aos líderes do PCB, o Partidão. Esse processo nos colocava em campos opostos, num período em que o Partidão tinha a grande hegemonia na área da saúde.

Assim, em um primeiro momento, estivemos em campos opostos de disputa. Quando ele retornou da Nicarágua, houve um episódio que marcou muito a minha percepção sobre Arouca, que era, para nós, uma referência central teórica e de grande liderança. Tínhamos feito um movimento de visitas hospitalares e, numa assembleia na ABI, presidida por João Carlos Serra, presidente do Sindicato dos Médicos, debatíamos se faríamos greve ou não. Quando estávamos nos encaminhando para a definição da greve, Arouca, no fundo da sala, levantou a mão e fez um discurso contundente sobre a impropriedade da greve, contra a pouca representatividade da assembleia, com um alerta de que o momento político poderia ser considerado um fracasso. Seu discurso foi carismático e aplaudido retumbantemente. Em seguida, pedi a palavra e discursei, com veemência, a respeito da importância da greve, pois tínhamos uma visão muito clara dos desejos da categoria. Com meu discurso, reverti a questão e aprovamos a greve. “Danou-se: estou em oposição a Arouca”, pensei. Na saída, eu estava preparado para uma situação de confronto ou mal-estar com ele. No entanto, Arouca me abraçou e disse, rindo, que o havíamos derrotado. Essa atitude me marcou muito, pois me trouxe uma visão muito diferente da que eu tinha dele. Mostrava alguém que conseguia lidar com as diferenças, com generosidade e humor.

Em outro momento, apresentei a Arlindo Fábio e Arouca, antes mesmo de ele assumir a Presidência da Fiocruz,  a proposta para a constituição de uma grande área de memória e organização da história da ciência médica no Rio de Janeiro. Tal proposta também estava associada à minha ideia de cursar o mestrado no Instituto de Medicina Social, e, posteriormente, Arouca integrou a minha banca. Ele acompanhou meu trabalho e ficou familiarizado com o projeto, tanto no campo da história como no processo de construção de um projeto de memória e documento da saúde. Arlindo, Arouca, Luiz Fernando Ferreira e o então diretor da ENSP Ernani Braga apresentaram o projeto a Guilardo Martins Alves, presidente da Fiocruz naquela época. A proposta não vingou e, em seguida, com o processo de redemocratização, Arouca se tornou presidente da Fiocruz.

Houve outro momento marcante da minha vida com Arouca. Estava no Parque do Flamengo com meus filhos pequenos e o encontrei com suas filhas. Eu tinha uma relação meio cerimonial com ele e mesmo assim, naquela ocasião, me convidou para vir para a Fiocruz. A Fiocruz, para todos nós, era algo quase mítico. Trabalhar na Fiocruz para alguém como eu – que lidava com o campo dos processos de transformação da Reforma Sanitária e trabalhava com a história da ciência da saúde – era algo importante. Naquele momento do país, a Fiocruz era o grande centro de protagonismo. No mesma época em que o Arouca me convidou, fui chamado para assinar um contrato definitivo com a Fundação Pró-Memória, ligada ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, justamente para consolidar o projeto de memória da saúde pública no Brasil. Sem titubear, larguei tudo e vim para a Fiocruz. E esse foi o início da constituição da Casa de Oswaldo Cruz.

Tal decisão definiu os rumos da minha trajetória. Esses momentos pessoais reproduziram, ao longo de tantos outros episódios, etapas marcantes de minha vida com Arouca.”

Hermano Castro – diretor da ENSP/Fiocruz

“O país vive momentos de grandes definições no campo da saúde pública. A população clama por mais saúde, acesso ao SUS e garantia de qualidade no atendimento, políticas de promoção da saúde e equidade. Sempre que o país vive momentos em que precisa dar rumos ao nosso sistema de saúde, lembra-se de Sergio Arouca. Enquanto se debatem novos caminhos e possibilidades para o Sistema Único de Saúde, avaliam-se novas propostas para sua sustentabilidade, e a sociedade discute o ‘Mais Médicos’, fazemos uma viagem ao passado e perguntamos: falta alguém no debate. A falta que faz Sérgio Arouca, como ser humano, político e, acima de tudo, um pensador à frente do seu tempo, traz saudades na nossa Fiocruz. Além de ‘Mais Saúde, Mais Médicos!’, clama-se também MAIS AROUCA!”

Paulo Buss  coordenador do Centro de Relações Internacionais em Saúde (Cris/Fiocruz) e ex-presidente da Fiocruz

“Conheci o Arouca, em 1976, quando chegou à ENSP para liderar uma nova área de trabalho. Era um líder amoroso que conquistava todos com seu carisma. Era uma combinação de inteligência e coração, um grande intelectual e, ao mesmo tempo, um grande sedutor, amigo, político. Será sempre lembrado por essas qualidades, com afeto e respeito. Arouca liderou a Reforma Sanitária no Brasil de maneira única, original e forte. É uma pessoa politicamente imortal. Muitas saudades...”

Antônio Ivo de Carvalho - pesquisador da ENSP e ex-diretor da Escola

“Homem da ciência e da política, Sergio Arouca teve papel fundador da Fiocruz contemporânea: moderna, democrática, estratégica de Estado, orientada para a ciência, para a saúde e para a cidadania. Seu pensamento crítico e sua genial intuição plasmaram a 8ª Conferência Nacional de Saúde em 1986, ícone da Reforma Sanitária Brasileira e do SUS. Após 10 anos, ficaram suas ideias e realizações, mas faz falta a inspiração que seu temperamento afetuoso e generoso provocava na luta pela saúde e pela democracia.”

Ary Miranda  pesquisador da ENSP e chefe de gabinete de Sergio Arouca como presidente da Fiocruz

“Tive a oportunidade de ter uma rica convivência pessoal e profissional com Arouca. É difícil falar de uma pessoa como ele, pois sempre deixamos escapar algum detalhe significativo de sua história. Ele tinha algumas características que são muito importantes de ressaltar. A primeira era seu compromisso político com a construção de um mundo melhor, democrático e justo para todos. Arouca conseguia juntar, a partir desse sentimento, a capacidade política de ação com uma excelente competência técnica. Ele trabalhava muito bem esses dois componentes, e isso fazia parte de sua vida. Mas há um elemento importante, que muitas vezes, na vida política, é desconsiderado: o componente afetivo. Arouca não descuidava desse aspecto em suas relações profissionais. Era uma pessoa acolhedora, respeitosa e humilde, apesar da grandeza de seu pensamento estar sempre à frente de todos nós.

Quando ele assumiu a presidência da Fiocruz, havia uma expectativa muito grande quanto aos novos tempos que se vislumbravam, pois foi um processo político muito tenso, com uma enorme mobilização interna dos funcionários da Fundação, além da grande mobilização nacional. Muitos achavam que quem não ficou diretamente com ele não deveria estar incorporado ao trabalho da Fiocruz. Arouca conseguia separar claramente isso e, sabendo a competência de cada um, procurava incorporar todos. No chamado ‘olho do furacão’, ele sabia exatamente como agregar as pessoas. Arouca percebia que todo mundo sempre tinha algo a contribuir em qualquer situação.

Então, ele trabalhava com todos estes elementos: o compromisso político, a capacidade técnica, a afetividade, o respeito e a agregação, que faziam dele a pessoa que foi, e ainda é, para todos nós. Isso não é pouca coisa: são características marcantes que eu conheci quando convivi com ele ao longo dos anos, não só na presidência da Fiocruz, mas também na época do Partido Comunista Brasileiro e na vida social.”

Maria Cecília Minayo – pesquisadora da ENSP e coordenadora do Centro Latino-Americano de Estudos de Violência e Saúde Jorge Careli (Claves/ENSP/Fiocruz)

“Há pessoas que não precisam viver muito para cumprir um grande destino na Terra. Uma delas foi o nosso querido colega Sergio Arouca, de quem temos muitas saudades e grande gratidão. Sua vida se pautou pela tarefa de abrir fronteiras: sua tese de doutorado mostrou as limitações da medicina preventiva, sua presidência na Fiocruz foi uma lufada de ar fresco que democratizou a instituição, trazendo de volta os cientistas perseguidos pela ditadura militar e instituindo a autonomia regulada por meio do Congresso Interno (sobre cujo formato, preciso dizer, atualmente tenho sérias dúvidas como dispositivo de democracia interna). Todas essas grandes questões foram lideradas por ele com alegria, carinho e visão de futuro. Seu locus privilegiado era a ENSP, mas sua esfera de influência abrangeu a Fiocruz, a saúde pública brasileira e o pensamento latino-americano do setor.

Por me tocar e tocar muito de perto, quero lembrar que foi ele, com Paulo Buss, quem idealizou o Claves, em 1988, para produzir estudos, pesquisas, ensino e assessoria para as instituições públicas e a sociedade civil a respeito do impacto da violência sobre a saúde. Na verdade, todas as boas ideias e iniciativas que ele lançou estão vivas. Por exemplo, neste ano, o Claves completa 25 anos e comemorar essa data é prestar uma homenagem a quem teve a agudeza de espírito de institucionalizar, na Fiocruz, uma resposta do setor da saúde à violência, fato que a OMS só veio a consagrar em 2002 num documento oficial, legitimando o tema como de importância indiscutível para a saúde pública. Portanto, comemorar dez anos da ausência de Arouca entre nós é também dar vida, rememorar e bendizer a importância de sua presença entre nós, que militamos a favor dos mesmos ideais que pautaram sua existência.”

Luiz Fernando Rocha Ferreira da Silva – ex-diretor da ENSP, pesquisador aposentado da Escola e professor emérito da Fiocruz

“Sergio Arouca foi, em primeiro lugar, um grande amigo. As coisas funcionavam em termos afetivos. Em segundo lugar, era um sujeito que sabia as possibilidades de cada um e só lhes pedia algo dentro de suas vocações naturais. Eis um exemplo: éramos três vice-presidentes de Arouca – eu (Ensino), Arlindo Fábio Gómez de Sousa (Produção) e Carlos Morel (Pesquisa). Assim, ele nunca me pediria para ir a Brasília tratar com políticos, porque isso era função do Arlindo, que sabia fazer isso muito melhor que eu. Outras coisas eram com o Morel. Comigo ficou, entre outras coisas, a criação da Casa de Oswaldo Cruz, para cuidar da questão da história, e da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio. O convívio com ele era extremamente agradável, pois sempre estava brincando. Dessa forma, produzimos bastante em prol da Fiocruz”.

Luis Eugênio Portela Fernandes de Souza – presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco)

"Antônio Sérgio Arouca é uma referência intelectual e política da maior importância para todos os estudiosos e militantes de reformas sociais e sanitárias que têm, como ideal, a garantia da saúde para todos. Seu trabalho como acadêmico, que lança luz sobre as relações entre os movimentos ideológicos, as formas de organização da atenção à saúde e as estruturas sociais, é seminal. Seu desempenho como gestor, à frente da Fiocruz especialmente, mostra que é possível associar eficiência técnica e compromisso social. E sua liderança política, tendo sido fundamental para as conquistas da Reforma Sanitária, como a inclusão da saúde como direito de cidadania e dever do Estado na Constituição de 1988, continua a ser inspiradora para as gerações que lhe sucederam. Como faz falta hoje um Sérgio Arouca..."

Alberto Pellegrini Filho  diretor do Centro de Estudos, Políticas e Informação sobre Determinantes Sociais da Saúde (Cepi-DSS/ENSP/Fiocruz)

“Tive o privilégio de seguir de perto a trajetória de Arouca desde o início dos anos 70. Há muito que dizer de sua importância para a saúde pública brasileira, para o movimento sanitário, para a criação do SUS, para a reconstrução da Fiocruz, mas nestas poucas palavras queria falar de sua figura humana. Arouca conseguiu destacar-se como acadêmico, militante, líder político e gestor, sem nunca perder a humildade, a capacidade de ouvir, contaminando todos com seu otimismo, sonhos ou, como ele preferia dizer, delírios. Ao contrário de lideranças que projetam sombras a seu redor, Arouca conseguia realçar o que havia de melhor em seus tantos discípulos, amigos e companheiros de jornada, para quem ele sempre estará vivo em suas lembranças.”

Ana Maria Costa – presidente do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes)

“Sergio Arouca teve e tem enorme importância na saúde pública nacional e latino-americana e na reforma sanitária na criação do SUS. A liderança politica do Sergio, particularmente na 8ª Conferência Nacional de Saúde, foi fundamental para a formulação da proposta vitoriosa na Assembleia Nacional Constituinte. Nossa Constituição afirma que a saúde é resultado de politicas sociais e econômicas traduzindo a matriz do pensamento sanitário da determinação social da saúde. O Sistema Único de Saúde é concebido e inserido no Sistema de Seguridade Social, cujos princípios estão alinhados ao direito universal à saúde. Muitos contribuíram nesse processo, mas a participação de Sergio Arouca foi indiscutivelmente essencial. Além disso, ao passar pela Fiocruz, Sergio Arouca deu um sopro democratizante e direcionou a instituição para o SUS, para a saúde nacional.

Tive a honra e o prazer de trabalhar com Arouca na fase final de sua vida, no Ministério da Saúde. Prossegui naquele mesmo lugar, até o fim do governo Lula, inspirada e comprometida em ajudar a consolidar aquela que tinha sido uma secretaria criada pelo Arouca  gestão participativa  e  sobre a qual ele dizia: 'Temos de fazer daqui um centro de pensamento critico estratégico para avançar o SUS e a reforma sanitária'. Faz muita falta sua liderança, brilho, capacidade de agregar, negociar. Faz falta também o amigo.”

Ligia Giovanella – pesquisadora da ENSP

“Sergio Arouca aliou brilhante atuação acadêmica à militância política e transcendeu os limites da ação setorial na luta pela construção da democracia e contra a ditadura militar. Desvelou a determinação histórico-social dos processos saúde e enfermidade para milhares de jovens de sua época, que se engajaram na luta pelo direito universal à saúde e por uma sociedade mais justa e solidária. Ícone do movimento sanitário, seu maior legado está gravado no Art. 196 da Constituição Federal de 1988: 'A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação'. Descobri com ele a concepção ampliada de saúde. Sarah e Arouca me acolheram quando cheguei ao Rio e à ENSP para aprender mais sobre saúde e democracia, direito à saúde, Estado e classes sociais, tudo aquilo que vislumbrara nos debates dos congressos estudantis da área da saúde abrilhantados por Arouca.”

Paulo Amarante – pesquisador da ENSP e coordenador do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Saúde Mental (Laps/ENSP/Fiocruz)

“O nome de Sergio Arouca nos traz muitas lembranças, mas a que mais me mobiliza, sempre que falo em seu nome, foi a sua insistência e luta em construir o 'pensamento crítico' em saúde, ou seja, uma consciência crítica sobre a relação do campo da saúde com o processo social e histórico. Duas cenas são históricas e marcantes no meu entendimento. A primeira é a de Arouca na Câmara dos Deputados em outubro de 1979, apresentando a proposta do SUS, pela primeira vez na política nacional, ao ler o documento A questão democrática na área da saúde, do Cebes, do qual ele era presidente. Arouca sempre lutou para que a Reforma Sanitária não se restringisse a uma reforma administrativa e burocrática do setor, e sim que fosse um processo civilizador. Aliás, é importante ressaltar que, tendo sido presidente da 8ª Conferência Nacional de Saúde, Arouca reuniu as lideranças da área para propor uma aliança para que fosse mantida a proposta da Reforma Sanitária, independentemente de quem fosse o presidente eleito em 2002 e que fosse imediatamente convocada uma conferência nacional de saúde. A grandeza histórica e o compromisso político de Arouca são, neste momento, a segunda cena que me vem à mente.”

Margareth Portela – pesquisadora da ENSP

“Não convivi com Sergio Arouca, mas sei da importância que teve no processo de formulação e estabelecimento do Sistema Único de Saúde, com seu caráter universal e gratuito. Entretanto, vou destacar aqui as impressões que construí sobre Sergio Arouca a partir de muitas pessoas queridas que conviveram com ele. Em primeiro lugar, a sua capacidade de respeitar e agregar diferenças. Sob o meu ponto de vista, talvez esta tenha a sua maior qualidade, e me sinto convencida dela quando vejo o profundo carinho e respeito que tantos guardam por ele. E, sem menor importância, a sua enorme capacidade como pensador e, mais especificamente, pensador no campo da saúde pública, o que não é uma característica necessariamente inerente à atividade acadêmica."

Ligia Bahia  – pesquisadora do Instituto de Estudos de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio de Janeiro

"Arouca foi e é um dos maiores sanitaristas da humanidade. Sua imensa capacidade intelectual e seu compromisso com as transformações sociais foram e são o motor de propulsão da saúde pública e da Reforma Sanitária brasileira. Tivemos e temos a sorte de ter como líder um pesquisador e político simultaneamente despojado e rico em compreensão, disposição para ouvir, captar novidades e promover encontros. É essa formidável e trepidante combinação de 'desinteresse' e interesse que confere sentido a uma vida dedicada a formular e inventar possibilidades para recusar o conformismo e o anestesiamento.

Neste momento em que o Brasil 'acorda', tanto porque aumentaram empregos e massa salarial como pela eclosão de um movimento plural constituído por jovens que foram para as ruas reinvindicar saúde pública, é preciso levar adiante as bandeiras da Reforma Sanitária. Arouca presente!"

Sindicato dos Servidores de Ciência, Tecnologia, Produção e Inovação em Saúde Pública (Asfoc-SN)

“O presidente do Sindicato, Paulo Garrido, destaca a importância de Sergio Arouca na história da Asfoc. Segundo ele, foi o sanitarista, então presidente da Fiocruz em 1985, quem incentivou e promoveu a primeira eleição direta para a diretoria da Associação dos Servidores da Fundação Oswaldo Cruz (Asfoc). 'Desde essa época, a Asfoc passou a ser realmente uma entidade representativa dos trabalhadores da Fiocruz na luta por melhores salários e condições de trabalho.'

Paulinho lembra ainda que, desde 2004, a Asfoc-SN concede o Prêmio Sergio Arouca de Saúde e Cidadania para manter viva a memória e a obra de nosso saudoso mestre e companheiro. O prêmio destaca iniciativas que visam defender e garantir o direito à saúde e à cidadania.

Este ano, o evento será realizado em 6 de setembro, e os homenageados serão: VídeoSaúde (Icict); Laboratório de Estudos e Pesquisas em Saúde Mental (Laps/ENSP); o médico e coordenador da saúde da Fundação Cesgranrio e de mestrado da Universidade Estácio de Sá, Ézio de Albuquerque Cordeiro; e o cirurgião pediátrico Paulo Roberto Boechat.”

Anamaria Tambellini - pesquisadora aposentada da ENSP/Fiocruz

"Sergio Arouca era um sujeito extraordinário: cidadão consciente, político de esquerda, pesquisador competente e médico a serviço da saúde do povo. Tinha ideias novas e avançadas, principalmente sobre a saúde, e sempre, num processo de fazer coletivo, procurava transformá-las em projetos que contemplassem a equidade, a ética e a competência científica e técnica. Imaginava um serviço de saúde que se constituiria e poderia se tornar realidade num país democrático.

Sempre foi um formulador e, quando no exercício da política, colocava essa qualidade à disposição dos companheiros da legislatura e do bem da nação. Homem sério e honesto, gostava de discursar, sabia usar as palavras e elas eram verdadeiras. Tinha uma fala vibrante, clara e poderosa no convencimento de suas verdades. Fiel a seus princípios e compromissos, companheiro leal, muito se esforçou para não errar, mas, algumas vezes, esmorecia e também falhava. Ele era humano.

Sergio foi um ser humano paradoxalmente forte e delicado. Muito sensível, era apegado à família e aos amigos, que eram muitos, e, quando emocionado, chorava assistindo a filmes, peças de teatro e até lendo textos. Gostava de se encontrar com pessoas amigas e mesmo conhecidos para bater papo, comer e beber em grupo. Nessas ocasiões, de bom humor, contava causos de Ribeirão Preto, da passagem pela Nicarágua e das gafes que cometia. Vivia numa quase permanente condição de “falta de carinho”, mas tinha um sorriso cativante que usava como arma de sedução. Amou e foi muito amado por todos que dele se aproximaram afetivamente, mas, sobretudo, amava seus filhos: três meninas e um menino. Foi um poeta.

Já o Antonio Sergio da Silva Arouca vivia escondido no fundo dos olhos dos outros dois que, vez ou outra, se descuidavam e ele se debruçava pela janela de outros olhares: jovem menino levado, inteligente, um rebelde promissor. Ávido da vida e de saber, gostava mesmo era de jogar futebol, desenhar e pintar, escrever até poesia e brigar na rua. Tinha um encantamento com animais e vivia querendo ter um cachorro. Conseguiu ter vários. Muito persuasivo, sempre escapava das reprimendas e já liderava seus amiguinhos vizinhos de rua. Discutia política com velhos senhores comunistas e anarquistas das redondezas, seguindo o modelo de seu irmão maior.

Hoje, esse moleque deve estar jogando bola, andando de bicicleta e desenhando saudades e palavras bonitas pelos céus afora."

Adauto Araújo – pesquisador da ENSP e ex-diretor da Escola

"Vou contar uma história engraçada que vivi com Arouca. Certo dia, eu e o pesquisador da ENSP Luiz Fernando Ferreira saíamos da Escola depois do almoço para a ronda mensal pelos sebos do centro da cidade em busca de bons livros. Arouca tomou o mesmo elevador em que estávamos e ofereceu carona, prontamente aceita. Levou-nos até um estacionamento na Avenida Passos, onde deixou o carro. Ao sairmos, o guardador o saudou: “Salve, deputado!”, com um sorriso estranho. Arouca respondeu a ele de bom humor e, logo depois, longe dos ouvidos do homem, comentou: “Deve estar pensando que sou político gazeteiro. Nunca deixei de estar em Brasília para as sessões, mas, agora, não tenho mandato, não fui eleito!"

Neuza Moysés – pesquisadora da ENSP/Fiocruz

"Sergio Arouca foi um homem marcante na trajetória da saúde pública nacional e internacional. Conheci-o pessoalmente em 1982, ao fazer curso de especialização em Gestão de Recursos Humanos na ENSP, que era vinculado ao Departamento de Administração e Planejamento em Saúde e ao qual eu pertenceria a partir de 1986. Tive o prazer e o privilégio de viver e acompanhar, de perto, parte de sua curta – porém, intensa e marcante – trajetória na defesa e luta pela soberania dos povos vítimas da opressão, combatente em prol do restabelecimento das liberdades democráticas em nosso país, entendendo a saúde como parte integrante e inseparável desse processo. Arouca, mais que um sanitarista e político, foi uma personalidade fundamental para a Fiocruz e para o país."

Marília Bernardes Marques - pesquisadora da Fiocruz e autora do livro Sergio Arouca - um Cara Sedutor

“Em 2002, já enfermo, Sergio Arouca concedeu entrevistas, nas quais ele foi instado a falar de si próprio, de sua trajetória. Uma delas receberia o título "Doutor Democracia" do jornal Pasquim, que se esforçava extemporaneamente para recuperar o protagonismo exercido, de maneira honrosa, durante a ditadura militar. A entrevista foi concedida no mês de agosto, exatamente um ano antes de ele falecer. Nela, afirmou a curtíssima frase que, a meu ver, situou em definitivo as origens de seu pensamento sobre a Reforma Sanitária: ‘Envolvi-me profundamente com a medicina preventiva, que marcou minha vida.’ Foi a partir desse envolvimento que Arouca viria a atingir um elevadíssimo grau de amadurecimento intelectual e teórico num processo acadêmico tão intenso como rápido e que, penso eu, hoje é raramente – ou, simplesmente, não é mais – observado numa área dita de saúde coletiva, que se desenrola mergulhada no pragmatismo. Desse processo resultou sua magnífica tese de doutoramento O dilema preventivista: contribuição para a compreensão e crítica da medicina preventiva, apresentada à Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp em 1976, quando Arouca tinha não mais do que 34 ou 35 anos de idade. Ele, de fato, esperava que esse trabalho contribuísse de algum modo para a constituição de uma teoria social da medicina como prática social. Na verdade, o trabalho intelectual de Arouca foi decisivo para que o movimento preventivista viesse a ser a base constitutiva do movimento da Reforma Sanitária brasileira que eclodiria e expandiria na redemocratização do país, nos anos 1980, e que culminaria na Constituição do SUS, em 1988.”

Sonia Fleury - Professora da EBAPE/FGV

“Sergio Arouca era um poço de contradições: um intelectual brilhante e muito humilde; um líder político rigoroso e um companheiro generoso; um sedutor nato e desleixado; um homem de ciência que colocava sua sensibilidade acima de qualquer razão.

Essa grande humanidade, creio eu, permitiu que ele agregasse tantas pessoas distintas, acima das divergências, na luta comum pela democratização da saúde. Ele tinha o dom de nos tornar melhores do que poderíamos ser isoladamente. Essa foi sua maior obra.”

Rita Mattos – pesquisadora da ENSP e ex-diretora da Asfoc

"A minha convivência com Arouca começou quando ele era presidente da Fiocruz, durante o início de minha carreira na Fundação. Mas a maior proximidade se deu quando fui diretora da Asfoc. Sinto muita falta de seu aconselhamento. Toda vez que eu tinha um conflito muito grande na Asfoc, quando tinha muitas dúvidas, eu lhe perguntava o que fazer. Onde ele estivesse, como deputado, como secretário, nunca deixou de me atender e aconselhar. Sua coerência e os princípios dos quais não abria mão fazem falta. Aliás, isso fez com que ele adoecesse. Lidar com a Câmara dos Deputados e a violência que é aquilo acelerou seu processo de doença, que talvez ocorresse mais tarde.

O que mais faz falta e faz falta para a saúde pública e muito mais para a Fiocruz é a sua coerência e seu afeto. Arouca era uma pessoa extremamente afetuosa. Todos nós que convivemos sob o ponto de vista político dele, e para além da coerência política dele de ter a saúde como um eixo central, sabemos do enorme afeto que ele tinha por todas as pessoas que o rodeavam. Além de ser um pensador que a todo o momento tinha ideias novas sobre coisas antigas, Arouca faz falta muito pelos seus princípios, e são princípios que cada um de nós que conviveu com ele carrega como um legado e cláusula pétrea que tanto falamos aqui na Fiocruz.”

Maria do Carmo Leal – pesquisadora da ENSP e ex-diretora da Escola

“Fiquei pensando o que falar dele. Veio-me à mente duas características do Arouca que eram muito fascinantes: a capacidade de fazer leituras próprias da realidade e falar coisas que realmente ainda não haviam sido ditas. Era um intelectual muito criativo, coerente, e vivia com os sapatos furados, como Mojica, hoje no Uruguai. Um aspecto que me impressionava, e ainda me impressiona, nos nossos intelectuais de esquerda, que não perderam essa sintonia com o povo mais humilde. Uma vontade mesmo de não se diferenciar deles.”

Carlos Medicis Morel – diretor do Centro de Desenvolvimento Tecnológico em Saúde (CDTS)/Fiocruz e vice-presidente da Fiocruz na gestão Arouca

"A primeira vez que vi Arouca foi na sala da Presidência da Fiocruz, no 5º andar do Castelo Mourisco, nos idos de 1978, quando tivemos uma breve reunião com o então presidente da Fiocruz, Vinicius Fonseca. Até então, nunca tinha ouvido falar de Arouca, mas sua figura logo me chamou a atenção: barba e cabelos compridos, olhos vivos, roupa “descuidada” (para dizer o mínimo), sorriso e simpatia contagiantes. Mal sabia eu que essa “figura” iria ter tanta influência sobre a trajetória da Fiocruz, a saúde pública e sobre todos que tiveram o privilégio de conviver com ele durante sua breve e profícua existência.

Passado esse primeiro encontro, pouco ouvi falar de Arouca nos anos seguintes. Lotado no Instituto Oswaldo Cruz (IOC), vindo da UnB, dedicava-me a tentar construir, na Fiocruz, uma área nova, voltada para a bioquímica e biologia molecular, tarefa para a qual eu tinha sido convidado por Wladimir Lobato Paraense, então vice-presidente da Fiocruz e ex-colega de UnB. “Naqueles tempos” – final da década de1970, início dos anos 1980 –, a separação na Fiocruz entre a área de pesquisa mais básica (representada pelo IOC, onde eu ficava) e a saúde pública (ENSP, onde Arouca ensinava) era real e, diria mesmo, até estimulada por ambos os lados.

Como tinha penado para vir da UnB para a Fiocruz – o famigerado Serviço Nacional de Informações (SNI) tinha vetado meu nome como “indivíduo altamente perigoso” –, eu tentava manter contato com colegas que lutavam contra o regime então vigente. Criamos a Associação dos Docentes, Pesquisadores e Tecnologistas da Fiocruz (ADFOC), que, em sua breve existência, organizou, em 1979, a primeira cerimônia pública em homenagem aos pesquisadores vítimas do Massacre de Manguinhos, quando fui o orador da cerimônia, relatada por Luiz Fernando Ferreira em suas Chronicas. As reuniões da ADFOC criaram a ponte que possibilitou a aproximação improvável entre um biólogo molecular e a “turma da saúde pública”, no jargão de então no IOC.

Apesar da anistia política de agosto de 1979, a transição (lenta, gradual e segura) comandada pelos militares para um regime democrático fez com que a vida, na Fiocruz, continuasse meio modorrenta até 1985, quando o país mudou, sacudido que foi pela campanha das Diretas Já e o início da redemocratização. Um grupo, para o qual fui chamado, se articulou na Fiocruz para propor o nome de Arouca para presidente. Foi a partir da luta travada para a conquista da Presidência da Fiocruz que comecei realmente a me aproximar de Arouca, conhecê-lo melhor e compartilhar com ele ideias, planos e projetos para o grande desafio que era a Presidência da Fiocruz. Apesar de tão pouco tempo de convivência, ele teve a generosidade de me convidar para sua equipe como vice-presidente de Pesquisa de sua gestão.

Guindado à Presidência, Arouca comandou no “micromundo” da Fiocruz a mesma batalha que se travava no país, a da redemocratização: sob sua batuta, começou o desmonte da antiga estrutura vertical e autoritária, e foram criados a ASFOC e o Congresso Interno – dois pilares de nossa gestão democrática e participativa, maior responsável pelos avanços conquistados desde então.

Mas o “micromundo” da Fiocruz era muito pequeno para Arouca: assumiu por uns tempos a Secretaria de Saúde do Rio de Janeiro, delegando para seus vice-presidentes, Arlindo, Luiz Fernando e eu, e Ari Miranda como chefe de Gabinete, a tarefa “mais simples” de tocar a Fiocruz... E, logo em seguida, se lançou a uma tarefa hercúlea, que poucos teriam a coragem, a competência e a liderança de enfrentar: presidir a VIIIª Conferência Nacional de Saúde.

À frente da CNS, Arouca faria uma revolução e criaria um marco histórico, um emblema de um momento em que o Brasil voltava a ser Brasil.

Em 2005, dei um longo depoimento sobre Arouca para o Programa de Pós-Graduação em Memória Social da Unirio, dentro do Projeto Memória e Patrimônio da Saúde Pública no Brasil – A Trajetória de Sérgio Arouca, em que relato o impacto que Arouca teve na minha trajetória e na de todos que tiveram o privilégio de sua convivência. A morte prematura de Arouca, aos 61 anos, muito me comoveu: sentei, imediatamente, em frente ao meu micro e lhe escrevi uma carta de despedida, publicada pela Agência Fiocruz de Notícias, que transcrevo, a seguir, concluindo este breve depoimento pelos dez anos do desaparecimento de meu inesquecível amigo, grande brasileiro, cidadão do mundo."

Deixe seu depoimento em homenagem aos dez anos da morte de Sergio Arouca.

(Foto de capa - Sergio Arouca: Nana Moraes/Fiocruz)

2 comentários para "Dez anos sem Sergio Arouca"

 

  1. NESTOR MANUEL BORDINI RODRIGUES

    Tive a felicidade de conviver com o Sr. Arouca como pessoa em Santa Teresa, Eu era um menino vendedor de jornais e todos os domingos ele vinha até minha banca improvisada no Largo dos Dois Irmãos em frente a comunidade do Morro dos Prazeres a qual em morava, Isso foi entre os anos de 70/80 Sr. Arouca comprava seu JB e com seu jeito intelectual, despojado e sempre preocupado com a atualidade me perguntava ai Menino como estão as coisas Menino, eu tentava indagar algo sobre a conjuntura era uma aula, ele conversava muito com todos nós o pessoal do Morro dos Prazeres curtia muito o Sr. Arouca, Trabalhar na ENSP para mim é uma emoção pois fico imaginando se o Sr. Arouco me vise aqui na sua Escola.

  2. ELIZABETH ARTMANN

    Sergio Arouca é uma destas pessoas, brilhantes, competentes e carinhosas que deixam saudades e também uma enorme inspiração para a continuidade na luta pela construção de um mundo mais justo, mais humano e mais saudável. Sua importância para a reconstrução da democracia e para o SUS é inegável, os depoimentos acima atestam isso. A contribuição que deixou em livros, em sua atuação frente à presidência da Fiocruz, como deputado, como professor é inestimável. Conheci o Arouca num debate no Pelourinho em Curitiba quando ele estava recém chegando da Nicarágua. Senti imediatamente que era uma pessoa especial. Eu estava na faculdade na época e só em 1986 chegaria à ENSP e viria a conviver mais com ele e me sinto privilegiada por ter tido esta oportunidade. Dez anos depois de sua partida, ele continua, com certeza, inspirando nossa caminhada rumo a um SUS para todos. Fiz e dediquei um poema a ele na época na minha tese de doutorado. Saudades imensas! Elizabeth Artmann

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