Estudo analisa potenciais formas de contaminação da indústria cimenteira

Publicada em
 
 
 

 
Quais são as possíveis consequências das atividades de coprocessamento da indústria cimenteira para a saúde dos trabalhadores e o ambiente? Foi em busca dessa resposta que o biólogo e aluno do Programa de Saúde Pública e Meio Ambiente da ENSP Felipe Oliveira direcionou os objetivos da sua dissertação de mestrado Avaliação da contaminação por metais em matrizes ambientais em área de cimenteira.
 
A pesquisa é um subprojeto de um grande estudo, coordenado pelos pesquisadores Ana Braga e Aldo Pacheco, pelo edital Inova ENSP, intitulado Estudo propositivo para implantação de ações de vigilância em fábricas de cimento no Brasil, que contempla três temas centrais: Saúde, Ambiente, Comunicação e Educação em Saúde. Responsável pela parte ambiental do trabalho, Felipe destacou, em entrevista ao Informe ENSP, a falta de regulação das atividades das indústrias, as formas de poluição dessa atividade industrial e a relevância desse trabalho para a população local. Confira.
 
Informe ENSP: Seu trabalho é um dos componentes do estudo que busca identificar e discutir os impactos sociais sobre a saúde e o ambiente decorrentes da utilização de resíduos industriais como substitutos de fontes energéticas tradicionais adotadas por indústrias cimenteiras no município de Cantagalo (RJ). Qual foi a principal motivação e quais aspectos são contemplados na sua pesquisa?
 
Felipe Oliveira: Meu trabalho é um subprojeto do Estudo propositivo para implantação de ações de vigilância em fábricas de cimento no Brasil, desenvolvido no âmbito do edital Inova ENSP e coordenado pelos pesquisadores Ana Braga e Aldo Pacheco. Trata-se de um estudo de caso no município do Cantagalo, no norte do Rio de Janeiro, onde avalio a contaminação por metais das matrizes ambientais de água e sedimento nas áreas de indústrias cimenteiras. A motivação surgiu a partir de observações, anteriores ao projeto, relacionadas à saúde dos trabalhadores das fábricas, impulsionando para uma visão mais ampla, agregando a comunidade e as questões ambientais. O estudo do Inova ENSP busca criar proposições de vigilância para essas áreas, não só para o ambiente, mas para a comunidade e os trabalhadores do entorno. 
 
Informe ENSP: Quais as especificidades da região de Cantagalo?
 
Felipe Oliveira: Cantagalo era uma cidade que vivia da mineração, mas, com a exaustão dos recursos, a agricultura e a agropecuária passaram a ser as principais atividades da região. Entretanto, há muitas jazidas de calcário no local – matéria-prima essencial para a indústria do cimento –, o que viabilizou a instalação de três grandes fábricas de cimento, em meados dos anos 1970, passando a ter um novo perfil econômico, social e político, tornando-se um polo cimenteiro. A população acabou se envolvendo com essas atividades, que passou a ser sua principal fonte de renda. No distrito de Euclidelândia as indústrias ficam dispostas linearmente num raio de aproximadamente 8km, bem próximas umas das outras e da própria comunidade. Portanto, o trabalho investigou de que forma essa atividade de fabricação do cimento e, consequentemente, o coprocessamento poderiam estar impactando o local.
 
Informe ENSP: E como todo esse processo poderia impactar o ambiente e a saúde da população?
 
Felipe Oliveira: O coprocessamento é uma tecnologia que consiste na utilização de resíduos industriais como fonte energética alternativa e/ou agregados nas matérias-primas, usados na fabricação do cimento, tais como calcário, argila e minério de ferro. Ao mesmo tempo, é uma forma de destinação final de resíduo, constituindo, assim, um novo mercado. O coprocessamento pode ser feito nas cimenteiras, de acordo com a própria característica da indústria e, para formar o clínquer, que é o núcleo do processo de fabricação de cimento, são necessários fornos rotatórios que trabalham por 24 horas por dia, em temperaturas muito elevadas, que podem chegar a dois mil graus Celsius. 
 
Com isso, acredita-se que haja destruição desses resíduos, além de servir como uma maneira das indústrias alterarem sua renda, pois, como foi dito, eles podem ser uma fonte energética alternativa ou matéria prima. Contudo, não é qualquer resíduo que pode ser utilizado. São feitas misturas, denominadas blends, desses componentes de acordo com seu uso específico, alguns podendo ser fontes alternativas de combustível, enquanto outros podendo ser usados dentro dos fornos, mas sabe-se que não há um controle disso.
 
Informe ENSP: Não há regulação desse processo?
 
Felipe Oliveira: Nesse trabalho foi avaliada a presença de metais em amostras de sedimento e de água. A Feema e o Conama fazem algumas intervenções, mas não há nada muito restritivo, não existe uma legislação específica para isso. A fiscalização é praticamente nula. Para averiguar as possíveis formas de contaminação, selecionamos 12 pontos ao longo desses 8km, num córrego que permeia as indústrias. Escolhemos os pontos que pudessem ser mais demonstrativos para os tipos de exposição que podem estar ocorrendo no local. 
 
Escolhemos um ponto de controle no córrego, localizado antes do polo industrial, e coletamos material até a região onde se encontram as indústrias e nos seus espaçamentos. Fizemos as análises desses 12 pontos para comparar se realmente havia contaminação ou não. Para a água, utilizamos a resolução do Conama 357, que dispõe sobre a classificação dos corpos de água e diretrizes ambientais para o seu enquadramento, bem como estabelece as condições e padrões de lançamento de efluentes. Para os sedimentos, usamos valores guia, denominados Sediment Quality Guidelines (SQGs), determinados a partir de estudos, uma vez que não há uma resolução que aborde satisfatoriamente o assunto, que foram divididos da seguinte forma: pouca contaminação, provável contaminação e contaminação severa, onde ficava demarcada a alta contaminação do sedimento.
 
Informe ENSP: E quais foram os resultados obtidos a partir das análises?
 
Felipe Oliveira: Fizemos coletas na época de chuva e na de seca para comparação das estações e percebemos alguns valores altos para água e sedimento. Entretanto, a gente só não pode classificar isso como contaminado. Podemos, sim, dar um indicativo de que a concentração está alta e apontar o que pode ser feito a partir disso. Idealmente, não se espera obter nada. De qualquer forma, não podemos afirmar, mas apenas sinalizar que o teor encontrado é fruto da atividade cimenteira.
 
O que se observou em relação aos padrões de contaminação, tanto na chuva quanto na seca, é que não são distintos. Quando fizemos as curvas no gráfico, observamos que se um ponto esteve alto para alumínio na chuva, também esteve na seca, por exemplo. Os pontos não coincidiram, mas sua distribuição era semelhante. Também não houve linearidade. Por exemplo: as indústrias são próximas umas das outras e havendo a contaminação por metais esperava-se que esse teor aumentasse ao longo do curso do rio, mas os valores que encontramos acima do legislado não apresentavam uma sequência, eram pontuais. Além disso, os valores obtidos eram muito próximos dos limites permitidos. Para confirmar os achados deveríamos ter um monitoramento mais periódico, pois os valores altos obtidos podem ser em função até mesmo da característica do local.
 
Por outro lado, a poluição causada pela cimenteira é geralmente atmosférica, através de emissões. A gente pensou que essa pluma pudesse estar sendo levada para uma área maior do que a selecionada para estudo. Também concluímos que poderia haver uma observação de outras matrizes, como fauna e flora, para ter maior avaliação das concentrações e o que isso poderia estar impactando o ambiente. Afirmo isso porque no escopo desse projeto do Inova ENSP temos um componente de saúde. Os estudos revelam que há índices preocupantes de câncer na região e de outras doenças que não deveriam ser altos. Nosso estudo contribuiu para aumentar essa visão crítica e observar o que pode estar acontecendo.
 
Informe ENSP: Em 2012, a cidade do Rio de Janeiro será palco de intensos debates mundiais envolvendo os campos da saúde pública, do meio ambiente e do desenvolvimento, sendo sede da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20). Como você classificaria a importância do seu trabalho e quais seriam os principais danos que esse tipo de contaminação por metais nas áreas de cimenteira podem trazer à saúde humana e ao ambiente?
 
Felipe Oliveira: É um trabalho de grande importância, uma vez que não há muitas informações e estudos sobre o que acontece na região. É um trabalho inédito, que auxilia também na construção de conhecimentos sobre as possíveis consequências das atividades de coprocessamento. A indústria cimenteira apresenta potencial contaminador em todos os seus processos, mas a sua principal fonte é a atmosférica; dessa forma, em curto prazo, os principais danos à saúde poderiam ser dermatites, alergias, problemas respiratórios; e, no longo prazo, não há como saber, o que se sabe é que há taxas de câncer e outras doenças crônicas mais elevadas do que em outras localidades, como foi mencionado anteriormente. Quanto ao ambiente, podem ser observados ausência de fauna e problemas na qualidade do ar, da água e do solo, além de nítido acúmulo de poeira sobre a vegetação.