Brasil deve modificar cultura de assistência ao parto

Publicada em
 
 
 

Isabela Schincariol

gestante_barriga_capa_esq_2011.jpgO Inquérito Nacional sobre Parto e Nascimento, coordenado pela ENSP/Fiocruz, busca conhecer os determinantes, a magnitude e os efeitos da cesariana desnecessária em puérperas e recém-nascidos brasileiros, bem como descrever a motivação das mulheres para a opção pelo tipo de parto e as complicações médicas durante o período do puerpério. A pesquisa, iniciada em fevereiro de 2011 e coordenada pela pesquisadora da Escola Maria do Carmo Leal, pretende ouvir 24 mil puérperas em todo o país. Entre os resultados observados até o momento está a melhora na saúde das crianças brasileiras. Como ponto negativo, o estudo observa os altos índices de óbito no momento do parto. No Brasil, as mulheres são medicalizadas para ter seu trabalho de parto acelerado. Temos que devolver a elas a possibilidade de parir no ritmo do seu corpo e da sua emoção, admite Maria do Carmo Leal.

A coordenadora lembra, durante apresentação da pesquisa no painel Parto cesáreo e suas consequências para puérperas e recém-nascidos, realizado no VIII Congresso Brasileiro de Epidemiologia, em São Paulo, em novembro de 2011, que a saúde das crianças tem melhorado substantivamente no País. De acordo com ela, ao tomar o indicador de mortalidade infantil como síntese da saúde das crianças, pode-se observar que há um decréscimo importante nessa situação, e isso se deu porque houve melhorias na qualidade de vida da população nos últimos 20, 30 anos.

Essas melhorias têm a ver com o aumento da urbanização, do saneamento básico. Além disso, as mulheres começaram a estudar mais, tivemos mudanças nas relações familiares e uma valorização da mulher. É importante lembrar que tivemos uma diminuição da fecundidade e criamos um Sistema Único de Saúde nos anos 1980 que vem dando um foco especial à atenção primária em saúde e que vem se mostrando bastante impactante na saúde das crianças e está diretamente relacionada com a queda da mortalidade infantil, lembrou a pesquisadora do Departamento de Epidemiologia da ENSP.

duca_gestante_barriga_dir_2011.jpgSegundo Maria do Carmo Leal, por outro lado, na medida em que a mortalidade infantil diminui, há uma grande concentração de óbitos no momento do parto. Temos a mortalidade materna e a mortalidade perionatal, que é o somatório dos óbitos fetais tardios aqueles que quase completaram seu ciclo de vida, mas nascem mortos, mais aqueles que morrem na primeira semana de vida. Esse conjunto, chamado de mortalidade perionatal, diminuiu um pouco, mas é extremamente elevado no País. Precisamos melhorar tanto a forma de atendimento no pré-natal que tem cobertura universal, mas que tem problema de qualidade quanto de atendimento no parto, que também tem cobertura universal para ser hospitalar, mas tem imensos débitos na qualidade da atenção.

As alternativas, segundo a palestrante, consistem em melhorar a qualidade assistencial pré-natal, em particular da assistência ao parto. Ela aponta que se não modificarmos isso, teremos problemas com um forte indicador de saúde das mulheres, que pode ser observado pela mortalidade materna. O Brasil tem índices alarmantes de mortalidade materna. É um direito das mulheres ter seus filhos sem perder sua vida e, por conta disso, temos que cuidar da atenção ao pré-natal e da atenção ao parto.

Maria do Carmo comentou, ainda, alguns obstáculos da assistência obstétrica no Brasil, que, em sua opinião, é extremamente medicalizada e possui um número excessivo de cesáreas, que correspondem a mais da metade dos partos no país. Já em relação às mulheres que possuem melhor condição social e no setor privado, esse número ultrapassa os 90%. Esse dado é absurdo, mas o problema não é só com a cesárea. Também temos problemas com o parto dito normal. Na verdade, não se trata de um parto normal, mas sim um parto vaginal. Isso porque o normal é aquele em que se processa no ritmo do corpo da mulher, sem intervenção, deixando o parto evoluir de acordo com a necessidade de processamento da criança. Quase não temos isso no nosso país. As mulheres normalmente são aceleradas em seu trabalho de parto. Isso aumenta a dor, o desconforto e traz complicações. Queremos devolver às nossas mulheres a possibilidade de parir no ritmo do corpo e da emoção. Trata-se de um grande desafio e temos que modificar a cultura do atendimento ao parto, além da cultura profissional, conclui Maria do Carmo.

Nenhum comentário para "Brasil deve modificar cultura de assistência ao parto"

Ninguém ainda comentou esta matéria. Seja o primeiro!

comente esta matéria

Utilize o formulário abaixo para se logar.