Pesquisa analisa impacto dos retrovirais no Brasil

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Isabela Schincariol

Aids_inova_monica_malta_capa.jpgPrimeiro de dezembro é o Dia Mundial de Prevenção contra o HIV/Aids. Entretanto, os usuários de drogas não têm muito a comemorar, uma vez que eles têm cerca de duas vezes mais chances de ir a óbito proveniente da doença quando comparados aos homossexuais e bissexuais. Esta é apenas uma das diversas constatações apresentadas na pesquisa O impacto do acesso gratuito e universal à terapia antirretroviral no Brasil: análise de sobrevida, desenvolvida pela pesquisadora da ENSP/Fiocruz Monica Malta. No trabalho, contemplado no Programa de Apoio à Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação em Saúde Pública (Inova-ENSP), Monica ressalta que ainda são precisos muitos esforços para tentar trazer os pacientes cada vez mais cedo para o serviço, a fim de se obter um diagnóstico precoce, principalmente nos grupos com prevalências mais altas da doença.

A pesquisa começou a ser desenvolvida em 2006, durante seu doutorado, quando foi comparada a sobrevida após o diagnóstico de Aids entre todos os homossexuais masculinos e usuários de drogas injetáveis notificados e diagnosticados no país ao longo de cinco anos. Atualmente, são estudados todos os pacientes portadores de Aids notificados entre julho de 1998 e dezembro de 2008 no Brasil; cerca de 400 mil pacientes. Monica salientou que o Brasil tem aproximadamente meio milhão de casos e uma estimativa de 650 mil pessoas vivendo com HIV/Aids, com incidência média de 20 por 100 mil habitantes.

Do total de pacientes estudados, 34% são mulheres heterossexuais, 25% homossexuais e bissexuais, 24% heterossexuais masculinos e 17% usuários de drogas injetáveis. Durante a análise, tivemos um total de 36% de óbitos distribuídos entre mulheres (30%), homens (30%), homossexuais ou bissexuais (24%), usuários de drogas (25%) e homens heterossexuais (21%). Foram verificadas também características que vêm se mantendo ao longo do tempo, principalmente a partir do ano 2000 em diante. Essas questões são importantes, pois devemos pensar as diferenças regionais e esses contextos diferenciados com os quais temos de lidar, explicou Monica.

A pesquisadora informou que o peso da doença é muito diferenciado no mundo e a cobertura da terapia ainda está aquém em todo o mundo. De acordo com Monica, trabalhos de outros estudiosos da área mostram que o Brasil também está pecando em conseguir trazer as pessoas que mais precisam de tratamento para se beneficiar desse acesso universal gratuito. Temos um paradigma. Por um lado, o Brasil é considerado mundialmente um modelo, mas, quando olhamos localmente e até nacionalmente, vemos questões que, à primeira vista, não imaginaríamos, como, por exemplo, essa questão do acesso tardio. Quem está na ponta do atendimento é que sabe o quanto ainda se tem para caminhar, lamentou.

Outro ponto destacado por Mônica é a questão da epidemia concentrada. Muitas de nossas estratégias são direcionadas à população em geral, e, por conta disso, os que mais precisam e estão sofrendo o peso maior da epidemia não se beneficiam de um diagnóstico precoce, de estratégias para aderências diferenciadas, como são os usuários de drogas, homossexuais e bissexuais e mulheres profissionais do sexo - que apresentam uma prevalência muito maior do que a população em geral, comentou.

Aids_inova_monica_malta_boneco_1.jpgEste estudo é de base secundária, e para a realização das pesquisas foram utilizados quatro bancos de dados nacionais do Ministério da Saúde. Todos os casos de Aids diagnosticados entre 1998 e 2008 foram incluídos. Os casos têm identificação igual em todos os bancos, portanto é possível identificá-los em qualquer um dos sistemas. Como esses bancos são interligados, numa etapa final de análise, também foi feito um processo probabilístico para identificar os indivíduos que foram a óbito. Segundo Monica, esta informação é subnotificada no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan/MS).

Fizemos análise de sobrevida para tentar identificar que categorias de exposição estariam com risco maior de ir a óbito e, entre outras coisas, analisamos variáveis como exames de carga viral, idade e etnia. Neste momento das pesquisas, estamos trabalhando novamente o banco para refutar alguns dados que faltam, pois tem muita informação que não está disponível no dado secundário, detalhou.

Em todas as análises feitas, os usuários de drogas injetáveis aparecem com um risco muito maior do que todos os outros de ir a óbito. Além disso, grande parcela dessa categoria de exposição só é diagnosticada no momento do óbito, e entram na categoria de acesso tardio, não conseguindo se beneficiar da nossa estratégia de acesso gratuito e universal. Temos uma política fantástica, mundialmente reconhecida, mas quem está na ponta sabe que ainda há muito a ser feito. Também percebemos que existe mortalidade diferencial quando elas são analisadas por categoria de exposição, comentou Monica, enfatizando que são necessários muitos esforços para tentar trazer esses pacientes cada vez mais cedo para o serviço, a fim de obter um diagnóstico precoce, principalmente nos grupos com prevalências mais altas.

Os resultados da pesquisa foram apresentados durante o painel Sobrevida de pacientes com HIV/Aids: avanços e desafios, realizado no dia 16 de novembro, durante o VIII Congresso Brasileiro de Epidemiologia, promovido pela Abrasco.

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