Lixo, questões sociais e de saúde são abordadas na Raic

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raic_cobertura_out2011_capa.jpgPor que o nosso município estimula os centros de triagem e não os centros de reciclagens?, perguntou o assessor de cooperação social da Fiocruz, Leonídio Madureira, durante o debate promovido no âmbito da Reunião Anual de Iniciação Científica, do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica da Fiocruz (Raic ENSP/Icict). Na abertura do evento, foi exibido o documentário Lixo extraordináro como pano de fundo para as discussões. Segundo a vice-diretora de Pesquisa e Desenvolvimento Tecnológico da ENSP, Margareth Portela, debater a questão do lixo é de extrema importância para a área ambiental, que envolve, entre outras coisas, as mudanças climáticas e a saúde do trabalhador. O debate foi moderado pelo chefe do Departamento de Saneamento e Saúde Ambiental, Paulo Barrocas.

Além de Paulo Barrocas e Leonídio Madureira, o debate também teve a presença do gestor de Infraestrutura e Meio Ambiente da Diretoria de Administração do Campus (Dirac/Fiocruz), Tatsuo Shubo. Antes da apresentação do documentário, Barrocas fez uma breve apresentação do filme, falou sobre o artista plástico Vik Muniz e contextualizou para os alunos o debate em torno do tema. Após a exibição do documentário, Leonídio abriu o debate ressaltando as grandes diversidades existentes dentro do nosso país. Segundo ele, o filme retrata a realidade e mostra a distância entre os diferentes mundos. Como podemos nos relacionar com esse movimento social, que existe no país e que também acontece, não de forma tão organizada, em Maguinhos? Como podemos contribuir com a qualidade de vida dessas pessoas que sobrevivem da reciclagem?, questionou ele.

Leonídio afirmou, ainda, que é preciso pensar na possibilidade de agregação de valor ao material recolhido por esses profissionais. Por que o município do Rio de Janeiro, por meio da Comlurb, estimula os centros de triagem em vez de estimular os centros de reciclagens? Por isso devemos pensar na possibilidade de agregação de valor para toda a cadeia, desde a catação até a geração de um novo produto reciclado. E essa discussão tem a ver com o modo como nós enxergamos nossa sociedade, em que modelo vivemos e qual é o nosso papel enquanto pesquisador, professor e cidadão brasileiro dentro desse contexto, concluiu ele.raic_cobertura_out2011_palestrantes_cent

Tatsuo lembrou o decreto da coleta seletiva solidária (nº 5.940) de 2006, que obriga todas as instituições públicas federais a destinarem o seu material para uma cooperativa de catadores. De acordo com ele, o primeiro problema enfrentado é a replicação de um modelo de concentração de renda, pois as cooperativas normalmente têm um dono e por isso não funcionam efetivamente como cooperativas, onde todos são parte do negócio.

Tatsuo explicou que, para atender ao decreto, vimos que a melhor maneira era trabalhar a questão social para a destinação do material. Pensar de que forma poderíamos incentivar os catadores a deixarem de ser apenas catadores e passarem a agregar valor ao material que recolhem, partindo do pressuposto de que eles não precisam mais coletar o material, já que recebem esse material já segregado das instituições, como, por exemplo, a Fiocruz, disse Tatsuo, que continuou dizendo que, para tanto, estamos tentando capacitar esses catadores a trabalharem com a questão ambiental, ou seja, gerando valor agregado ao material que ele está recebendo. Eles podem sair do subemprego para o emprego formal. Assim, eles deixam de se associar a cooperativas que não funcionam como tais e passam a ter participação no processo. Essa é uma das ações realizadas pelo departamento de Meio Ambiente da Dirac que têm relação com a sociedade.

Tatsuo concluiu a sua fala advertindo que esse não é um trabalho fácil, pois além de todas as dificuldades que envolvem um processo normal de trabalho, ainda estão envolvidos estigmas e questões culturais. Os catadores precisam entender que fazem parte de um processo econômico e social e que a responsabilidade deles é fundamental para que o trabalho aconteça de maneira plena. O debatedor da mesa, Paulo Barrocas, encerrou as apresentações lembrando a recém-criada lei nº 12.305, de 2 de agosto de 2010, que institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos. Segundo essa nova lei, disse Barrocas, espera-se que se acabem os lixões e que não se tenham mais catadores. A proposta é que o Lixão de Jardim Gramacho seja fechado e já está em criação um novo Centro de Triagem de Resíduos, onde não haverá catadores. O grande dilema é: o que acontecerá com essas pessoas que vivem de catar lixo?, completou ele.raic_cobertura_out2011_publico_centro.jp

Lixo extraordinário

Filmado ao longo de dois anos, de agosto de 2007 a maio de 2009, Lixo extraordinário acompanha o trabalho do artista plástico Vik Muniz em um dos maiores aterros sanitários do mundo: o Jardim Gramacho, na periferia do Rio de Janeiro. Lá, ele fotografa um grupo de catadores de materiais recicláveis, com o objetivo inicial de retratá-los. No entanto, o trabalho com esses personagens revela a dignidade e o desespero que enfrentam quando incentivados a imaginarem suas vidas fora daquele ambiente. A equipe tem acesso a todo o processo e, no final, revela o poder transformador da arte e da alquimia do espírito humano.

Reunião Anual de Iniciação Científica

Além da exibição do documentário e do debate, a Raic tem, ainda, até o dia 19 de outubro, a apresentação dos trabalhos desenvolvidos por todos os seus alunos/bolsistas. Ao todo, até quarta-feira, serão apresentados 64 trabalhos em formato pôster. Confira algumas fotos na galeria.