Pesquisa analisa a saúde do trabalhador da saúde

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Isabela Schincariol

Um Centro de Atenção Psicossocial (Caps), localizado em um bairro do subúrbio do município do Rio de Janeiro, com perfil de atendimentos a usuários de baixa renda e em funcionamento há cinco anos, foi o espaço escolhido para o desenvolvimento da dissertação de mestrado em saúde pública Profissionais do Centro de Atenção Psicossocial: a saúde do trabalhador da saúde, defendida por Vladimir Athayde, na ENSP. Com este pano de fundo e o Caps como elemento central, a pesquisa mostrou que, na unidade estudada, as condições de trabalho são bastante insatisfatórias, repercutindo tanto no serviço prestado quanto na saúde dos seus próprios trabalhadores.

Vladimir Athayde, que é psicólogo e atua na área da saúde mental com foco na saúde do trabalhador, lembrou que os Caps foram criados a partir da Reforma Psiquiátrica, sob forte influência do movimento italiano de desinstitucionalização do lugar de segregação que foi estabelecido técnica, social e culturalmente para a loucura. Ele disse ainda que esses centros foram implementados efetivamente em todo o Brasil a partir de sua regulamentação quanto ao porte, no ano de 2002. Hoje existem cerca de 1.300 unidades em todo o país, porém a organização do novo modelo é incipiente enquanto política pública. Além disso, a literatura sobre a saúde do trabalhador de saúde mental é ainda reduzida, apesar de sua relevância, sendo a precarização do trabalho uma das faces da desumanização em saúde, alertou.

vladimir_athayde_saude_mental_centro.jpgCom este estudo, Vladimir, buscou subsídios para articular dois campos de pesquisa e intervenção: saúdes mental e do trabalhador, entendendo que a esfera da subjetividade encontra grande e crescente expressão no campo da saúde do trabalhador. Para ele, as estratégias utilizadas pelos trabalhadores no enfrentamento e superação das adversidades no trabalho envolvem o apego aos ideais do serviço e o reconhecimento do trabalho realizado em equipe e pelos usuários.

O psicólogo, que foi orientado pela professora do Programa de Pós-Graduação em Saúde Pública ENSP, Élida Azevedo Hennington, afirmou que, apesar da produção científica sobre a precarização dos trabalhadores de Caps ser bastante reduzida, estudos anteriores confirmam que ela vem interferindo bastante no trabalho destas unidades de saúde. Ele apontou ainda possíveis acontecimentos relacionados ao trabalho na rede de Caps. Entre os quais estão o grande sofrimento proveniente da tensão inerente ao trabalho e potencializada por fatores como a pobreza da população atendida, as precárias condições de vida em geral no território, a falta de recursos e de infraestrutura, a falta de pessoal, o excesso de demanda e a precariedade de vínculos empregatícios dos trabalhadores da saúde.

Como lidam os profissionais do Caps com fatores relacionados à própria saúde no cotidiano de trabalho, no contexto em que se encontram?

Vladimir contou que, no município do Rio de Janeiro, existem dez Caps credenciados na Secretaria Municipal de Saúde e Defesa Civil (SMSDC-RJ). Para realizar o estudo, ele procurou uma unidade sediada na região metropolitana pois acredita que essa área apresenta características peculiares em relação a municípios menos urbanizados, principalmente no que se refere à demanda que estivesse em atividade há mais de três anos e não apresentasse processo de renovação de funcionários integrantes da equipe.

Com sua atenção investigativa em um objeto mais específico, Vladimir delimitou-se à seguinte pergunta norteadora: Como lidam os profissionais do Caps com fatores relacionados à própria saúde no cotidiano de trabalho, no contexto em que se encontram? O trabalho não priorizou a corroboração ou refutação de hipótese prévia, e sim a elaboração de pistas para desenvolver a análise a respeito das relações entre o trabalho nos Caps e a saúde mental de seus operadores profissionais, sendo o foco o processo saúde-doença-trabalho desses profissionais.

Cercado de comunidades carentes, o Caps escolhido atende moradores do entorno e é cenário de muitos episódios de violência devido ao tráfico armado de drogas e a movimentos milicianos. Além disso, o bairro onde está situado possui baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).

Vladimir detalhou o trabalho de campo dizendo que antes da apresentação dos resultados finais, na fase posterior ao trabalho de campo, realizamos um retorno à unidade estudada para a discussão dos resultados preliminares da pesquisa. Porém, consideramos que essa discussão não proporcionou o resultado almejado de troca de visões sobre o assunto em questão, permanecendo muito mais como uma satisfação do pesquisador quanto ao material trabalhado, contou.

Com as entrevistas realizadas, Vladimir percebeu que, no Caps, o trabalho não é repetitivo, mas é muito intenso. Considerando isto, o trabalho no Caps não termina ao fim da jornada de trabalho, pois este reverbera ainda por dias e em outros espaços da vida, interferindo talvez até no jeito de ser. Os profissionais relatam esta queixa nas entrevistas, porém não com uma explicação de cunho clínico e teórico, mas sim através do comentário, de forma conotativa, que também estão ficando loucos.

Outras dificuldades verbalizadas pelos profissionais e que têm grande influência na atividade de trabalho da Unidade, de acordo com Vladimir, estão relacionadas à precariedade das condições de trabalho, que passa pela manutenção da unidade, mobiliário, estrutura administrativa, material de oficinas, suporte e infraestrutura de cozinha e alimentação, transporte para visitas domiciliares, salário dos terceirizados, quantidade de pessoal e segurança. Além disso, os profissionais ouvidos durante as entrevistas falaram sobre o deserto sanitário, termo criado para definir a fragilidade da Rede de Atenção à Saúde Mental e do SUS de forma geral, especialmente na área programática estudada. Outro conceito apresentado por eles ao longo do trabalho de campo foi a falta de rede, citado como sendo o principal fator a influenciar negativamente a atenção prestada, explicou ele.

Vladimir disse ainda que tanto o sofrimento envolvido naturalmente com o trabalho em Saúde Mental como a responsabilidade de atuar conforme os pressupostos da Reforma Psiquiátrica, porém reinventando cotidianamente o trabalho, demandam o uso de potencialidades individuais de forma talvez exaustiva, se considerarmos que há um esforço extra na medida em que não há condições de trabalho ideais.

Ele apontou que, além da sobrecarga, acúmulo de tarefas e tensão referidas por eles, um fator de sofrimento que se pode perceber indiretamente foi o sofrimento decorrente da não realização do trabalho. Cada dificuldade gerada pelas condições de trabalho toma um tempo enorme de discussão no coletivo, mesmo para que se possa chegar a um jeitinho de resolvê-la. Além do tempo gasto em si com o problema, há um envolvimento subjetivo que é cansativo e de difícil mensuração, prejudicando o trabalho em si, a atenção (médico) psicossocial às pessoas com transtorno mental grave, a discussão clínica aprofundada e o acompanhamento dos casos.

Concluiu dizendo que este fator que incide sobre uma atividade de trabalho com estas características parece ter um efeito negativo em especial na saúde, por não deixar que o trabalho seja bem realizado, prejudicando a plena satisfação que ele geraria. Enfim, está claro que as condições de trabalho ruins recaem sobre a gestão do trabalho, sobre a atividade clínica e sobre a saúde.