Pesquisa vai revelar mudanças do perfil de saúde de índios Xavante

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Em mais um trabalho de vanguarda, pesquisadores da ENSP irão, pela primeira vez no país, traçar um perfil diacrônico acerca da saúde da população indígena Xavante. O objetivo é analisar os grandes processos de mudanças ambientais, ecológicos, socioculturais, epidemiológicos e seus impactos sobre a saúde e a biologia humana. A pesquisa Mudanças socioambientais, saúde e nutrição entre o povo indígena Xavante do Brasil central será realizada no âmbito do Programa de Apoio à Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação em Saúde Pública (Inova-ENSP).

O coordenador do estudo, Carlos Coimbra Jr, relatou que, devido a numerosas pesquisas realizadas desde a década de 1960, os Xavante constituem, no contexto brasileiro, um dos povos indígenas melhor conhecidos na atualidade, tanto do ponto de vista antropológico quanto em relação a dimensões biológicas e epidemiológicas.

trabalho_campo_xavante_coimbra_centro1.jOs Xavante da terra indígena Pimentel Barbosa totalizam, hoje, cerca de 1.500 índios que se encontram divididos em dez aldeias relativamente próximas, situadas na mesma terra indígena. A pesquisa envolverá as dez aldeias de Pimentel Barbosa. No desenho do estudo estão previstas investigações do estado nutricional, da prevalência de hipertensão arterial, diabetes mellitus e da saúde bucal. Além disso, serão pesquisados fatores socioeconômicos e ambientais associados, levando em consideração os processos de transição nutricional e de territorialidade em curso nas comunidades envolvidas.

Coimbra destaca o envolvimento de estudantes da ENSP na pesquisa. Para ele, é sempre muito importante integrar o processo de formação profissional com a inovação científica. Assim, valorizamos a pós-graduação da Escola, o que já é tradicional, e também proporcionamos aos alunos não apenas um título acadêmico, mas também o conhecimento acerca de um outro lado do Brasil, que poucos tem acesso. Ao mesmo tempo também estamos capacitando uma nova geração de pesquisadores na área da saúde pública com um olhar diferenciado em relação aos povos indígenas, que muitas vezes não são incluídos no cenário dos estudos populacionais do país.

Preocupações de lideranças indígenas alertam também pesquisadores

Apesar de a saúde indígena ser o tema central desse grupo, os pesquisadores resolveram focar nos impactos das doenças causadas pelas mudanças de comportamento por uma demanda dos próprios integrantes das aldeias. Passamos muito tempo dentro das aldeias, temos conversas cotidianas e muito intensas com as lideranças locais. Foram eles que expuseram as preocupações sobre as novas doenças que estavam começando a surgir entre eles. Os mais novos estavam sofrendo com enfermidades que os mais velhos nunca tinham vivenciado como, por exemplo, diabetes mellitus e hipertensão arterial. Nós, pesquisadores, temos indagações, curiosidade científicas, questões acadêmica, mas eles têm anseios por investigações que tragam respostas para seus problemas. Por isso, queremos trabalhar cada vez mais próximos das comunidades, disse ele.

carlos_coimbra_boneco_jun_2010_dir.jpgQuando o livro The Xavante in Transition: Health, Demography and Bioanthropology in Central Brazil, que resumiu as pesquisas realizadas entre 1990 e 2000 por pesquisadores da ENSP e de outras instituições, ficou pronto, em 2002, o grupo levou a prova para a aldeia. Mostramos fotos e tabelas que seriam publicadas, discutimos conteúdos e recebemos a aprovação dos Xavante. Nessa ocasião, uma das lideranças indígenas deu um depoimento que acabou se tornando o prefácio do livro. Já naquela época, eles demonstravam preocupações com as questões das doenças emergentes, do ganho de peso, etc. Vale ressaltar que estas são doenças completamente diferentes das doenças infecciosas. São doenças que estão fortemente associadas a um conjunto de comportamentos, novas práticas e costumes e que incluem mudanças na alimentação, estilo de vida, uma maior exposição a outros hábitos, como o de beber e fumar, por exemplo. Mas qual é o remédio para mudar comportamentos humanos? Isso não existe! É um desafio completamente novo a todos aqueles que estão lidando com estas questões entre as populações indígenas, inclusive para os próprios indígenas.

Território indígena: grande espaço de preservação ambiental

Nessa pesquisa também será estudada a territorialidade dos espaços. Os pesquisadores trabalharão em parceria com uma equipe da Universidade de Indiana, dos Estados Unidos, coordenada pelo antropólogo ambientalista Eduardo Sonnewend Brondízio, e usarão imagens de satélites para investigar o processo de mudança do uso do espaço do território ao longo do tempo. Eles trabalharão com imagens coletadas durante 30 anos. Com elas, poderemos discutir as mudanças ambientais, suas relações coma a saúde e os novos desafios que emergem a partir dessa perspectiva de ambiente, uso do espaço, da terra e do território indígenas. É a primeira vez que isso será feito no Brasil, explicou Coimbra.

trabalho_campo_xavante_coimbra_centro2.jEle contou ainda que pelas imagens é possível ver que há enorme preservação dessa terra, ao passo que no entorno, as fazendas são dedicadas, quase que em sua totalidade, à monoculturas de soja e ao pasto. Segundo Coimbra, percebe-se a pressão da população rural local em torno das Terras Indígenas (TI). Por isso, temos que reconhecer que as TI acabam sendo um grande espaço de preservação ambiental. O manejo da terra pelo índio, do ponto de vista de sua sustentabilidade, é de longo prazo. Outra preocupação é que, mesmo preservando, o manejo externo dessa terra também traz impactos para dentro das aldeias, já que a agricultura comercial de larga escala vem fortemente associada ao uso de praguicidas, fertilizantes, e outros, que são levados para dentro da reserva através da chuva, de rios que cortam as aldeias.

Diferenças econômicas dentro de uma mesma aldeia

De acordo com Coimbra, é muito comum que as pessoas tenham um olhar homogeneizador dessas populações, pois há pouco tempo ela passou a utilizar práticas mercantis. Começamos a ver que alguns recebem salário por ser professor indígena, outros recebem aposentadoria do estado por ser idoso, alguns trabalham como agente indígena de saúde, entre outros exemplos. E essa diversidade econômica que faz muita diferença no convívio coletivo, inclusive no âmbito da saúde, avaliou ele.

Nesta abordagem, os pesquisadores estão recebendo a contribuição do pesquisador visitante James Robert Welch, ligado ao grupo Saúde, Epidemiologia e Antropologia dos Povos Indígenas da ENSP. Para Coimbra, o trabalho de desenvolvimento de indicadores socioeconômicos adequados à realidade das populações indígenas é novo. Uma possibilidade é focar na questão dos bens de consumo pelos domicílios. A partir desses indicadores, podemos analisar diversas interfaces com a saúde, seja no processo de crescimento ou desenvolvimento de crianças ou no processo de ganho de peso excessivo no adulto.

Ingestão de açúcar e serviços precários propiciam deterioração da saúde bucal

A análise de saúde bucal, que entrará na pesquisa em uma segunda etapa, terá a colaboração do pesquisador da UFRJ e da ENSP Mario Vettore e o pesquisador visitante da Fiocruz-Cerrado Pantanal Rui Arantes. Segundo Carlos Coimbra, são especialistas com vasta experiência na área. Devido à entrada de açúcar e de outros alimentos na dieta dos índios, e o não acesso à informação e às tecnologias de higiene, como a água fluoretada, o fio dental, pasta e escova, a saúde bucal foi bastante prejudicada. Além disso, o acesso aos serviços odontológicos nessa região são muito precários.

O tempo previsto para a realização do projeto é de dois anos e, além de Coimbra, Eduardo Brondízio, James Welch, Mario Vettre e Rui Arantes, a pesquisa terá a participação de Ricardo Ventura Santos como segundo coordenador do projeto, dos alunos de mestrado, Maurício Oliveira e Rodolfo Lucena, e da aluna de doutorado Aline Ferreira, todos ligados ao Programa de Epidemiologia em Saúde Pública da ENSP.

Crédito das fotos: acervo pessoal do grupo de pesquisa

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