Novo coordenador de Projetos Sociais da ENSP fala dos desafios e das metas para 2006

Publicada em
 
 
 

O novo coordenador de Projetos Sociais da ENSP, José Leonídio Madureira Santos, assume o novo cargo sabendo que 2006 será um ano de muitos desafios. Lotado no Centro de Saúde Germano Sinval Faria (CSGSF/ENSP/Fiocruz), Leonídio já organizou uma agenda de atividades para os próximos meses, que inclui a reformulação das estratégias do DLIS com o objetivo de dar continuidade e reforçar o projeto Laboratório Territorial, que procura repensar o território a partir da construção do conhecimento compartilhado e inclui o Programa de desenvolvimento urbanístico da área de Manguinhos. Preocupado com a violência e com o esvaziamento econômico da região, Leonídeo acredita que Manguinhos é o espelho da desigualdade da sociedade brasileira. Vivemos em um local de contrastes, onde de um lado há conhecimento técnico e científico reconhecido internacionalmente (Fiocruz), e do outro lado há pessoas que morrem por falta de higiene. A desigualdade do nosso país pode ser reconhecida verdadeiramente aqui em Manguinhos, destacou. Leia, a seguir, a entrevista com o novo coordenador de Projetos Sociais da ENSP.

ENSP Notícias: Apesar de estar assumindo a Coordenação de Projetos Sociais da ENSP a partir de fevereiro deste ano, você já coordenava alguns projetos sociais da Escola. Fale um pouco sobre suas atividades.

Leonidio1.jpg José Leonídio Madureira Santos: Vim redistribuído do IBGE para a Fiocruz e fiquei alocado no Desenvolvimento Comunitário do Centro de Saúde Germano Sinval Faria (CSGSF/ENSP/Fiocruz). O principal objetivo era o trabalhar no Projeto de Desenvolvimento Local, Integrado e Sustentável (DLIS). Minha principal atividade era conseguir apoio da iniciativa privada, de empresas e do poder público para a construção de propostas voltadas para a melhoria na qualidade de vida da população de Manguinhos. Também participei da coordenação do Programa de Educação de Jovens e Adultos, do programa de atendimento jurídico à comunidade e de uma proposta de comunicação e informação, através da Rede CCAP. Fiz parte também de um movimento de grande articulação chamado Agenda Redutora de Violência, fruto de um processo de luta em relação à violação dos direitos das populações civis das favelas, principalmente de Manguinhos. Essa agenda é uma articulação de forças, de grupos formais e informais, de empresas e de segmentos da sociedade preocupados com a violência. Isso resultou em três grandes eventos, que foi o fechamento da Rua Leopoldo Bulhões em três domingos para atividades de lazer.

ENSP Notícias: Quais são as metas da sua gestão à frente da Coordenação de Projetos Sociais da ENSP?

José Leonídio Madureira Santos: A área de projetos sociais da ENSP possui três grandes eixos. Primeiro, é necessário definir a relação institucional com os projetos em andamento. Esse tema tem que deixar de ser associado ao trabalho de uma pessoa e se constituir em uma ação mais efetiva de todo o corpo da Escola. Poderíamos ter uma interação maior entre atividade acadêmica, que é característica da ENSP, e comprometimento com a população de Manguinhos, que é nossa vizinha. O segundo eixo é realizar um inventário dos projetos sociais, ou seja, fazer um levantamento de quais são os projetos que temos hoje: de pesquisa, de educação, de capacitação profissional, etc. O terceiro eixo trata de repensar a aplicabilidade dos conceitos e da metodologia presentes no DLIS. É necessário reformular as estratégias de intervenção na vida desses cidadãos e de suas organizações. Não devemos estimular a interlocução a partir de um líder comunitário, ou de uma única organização da comunidade, até porque dentro de uma favela existem várias comunidades, vários grupos de afinidades que estão ligados aos mesmos interesses. Por isso, não é totalmente correto usarmos a palavra comunidade, já que o que une essas pessoas é justamente o que elas não querem: violência e pobreza.

ENSP Notícias: Qual é o objetivo da revisão da aplicabilidade e os conceitos da metodologia do DLIS?

José Leonídio Madureira Santos: O principal objetivo é dar continuidade e reforçar o projeto Laboratório Territorial, que vem repensar o território a partir da construção do conhecimento compartilhado. Com isso, estaríamos reforçando um maior entendimento e compreensão histórica do local, das principais personalidades, do saber popular, da relação dessas pessoas com o meio ambiente, ou seja, poderemos apontar a construção de mapas conceituais e temáticos na região de Manguinhos, que viria a produzir esse conhecimento. Outro ponto importante desse laboratório é o Programa de desenvolvimento urbanístico da área de Manguinhos. Já foi feito um estudo a respeito desse plano e agora é necessário discutir o esvaziamento econômico da região. Qual é o principal motivo do esvaziamento, se é pela violência ou pela saúde financeira das empresas, por exemplo.

ENSP Notícias: Qual outro ponto você destacaria?

José Leonídio Madureira Santos: Outro ponto a repensar é o Fórum de Educação de Manguinhos. Já se desenvolvem ações que vão da alfabetização de jovens e adultos, passando pelo ensino infantil, até a realização de cursos de especialização com bolsas integrais na Cândido Mendes para trabalhadores da área de educação de Manguinhos. Também temos projetos em discussão que estão relacionados ao programa de Vocação Científica da Escola Politécnica. É importante trabalhar uma proposta de reforço do aprendizado dos alunos para que eles possam concorrer às escolas técnicas. Não posso deixar de falar da Educação Informal Integrada, que tem como objetivo envolver o setor de saúde, de cultura , de informática e o reforço da capacidade de aprendizado dessas crianças, e assim tentar detectar os principais obstáculos que dificultam o aprendizado.

ENSP Notícias: Quais são os grandes desafios a serem enfrentados?

José Leonídio Madureira Santos: Na Agenda Redutora, nosso maior desafio era contribuir para reduzir as causas primárias geradoras da violência em uma região considerada de alto risco social. Na coordenação de Projetos Sociais, o grande desafio é aproximar os saberes: o conhecimento científico e acadêmico da Escola com o saber prático e o saber popular dos moradores de Manguinhos. A partir disso, teremos mais condições de reforçar uma ação que garanta uma melhor capacidade destes cidadãos em se organizar e se colocar perante a sociedade.

ENSP Notícias: Qual é a área de abrangência desses projetos?

José Leonídio Madureira Santos: A agenda redutora da violência, por exemplo, teve uma participação de aproximadamente 40 grupos da área de Manguinhos, entre grupos religiosos, de educação, de esportes, cultura artística. Posso afirmar que mobilizamos toda a área de Manguinhos. O Programa de Saúde da Família facilitou a interlocução interna. Criou-se uma rede informal desses diversos atores. Hoje, a Agenda também atua na área da Maré.

ENSP Notícias: Como você vê a situação atual de Manguinhos?

José Leonídio Madureira Santos: A ENSP faz um investimento grande na área social. Não resta dúvida. Porém, é necessário pensar em desenvolver projetos que realmente atendam às carências da população. A situação é séria e a precariedade é enorme. Vivemos em um local de contrastes, onde de um lado há conhecimento técnico e científico reconhecido internacionalmente, e do outro lado há pessoas que morrem por falta de higiene, por não poder garantir a sobrevida de uma criança recém-nascida. A desigualdade do nosso país pode ser reconhecida verdadeiramente aqui em Manguinhos. Esse quadro é diagnosticado e devemos usá-lo como laboratório para ajudar a detectar e a resolver as carências do nosso país.

Foto: Gutemberg Brito SDE/ENSP

Nenhum comentário para "Novo coordenador de Projetos Sociais da ENSP fala dos desafios e das metas para 2006"

Ninguém ainda comentou esta matéria. Seja o primeiro!

comente esta matéria

Utilize o formulário abaixo para se logar.