Apresentações mostram vigor de pesquisas sobre saúde indígena

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Estudos realizados pela ENSP sobre saúde indígena estiveram em evidência nos cinco dias do IX Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva da Abrasco, que terminou em 4/11, em Recife. Na comunicação coordenada Interculturalidade e saúde indígena - abordagens antropológicas, três dos cinco trabalhos apresentaram resultados de pesquisas realizadas na Escola sobre tuberculose, censo com mulheres indígenas e sustentabilidade das políticas públicas em saúde indígena.

O pesquisador visitante da ENSP/Fiocruz James Robert Welch apresentou o trabalho Sangue nos pulmões: micobactérias, feitiço e tuberculose entre os Xavante de Mato Grosso, que analisou comparativamente as perspectivas nativas e biomédicas acerca da etiologia e tratamento da tuberculose, tomando o povo indígena Xavante do Brasil Central como estudo de caso. A pesquisa etnográfica foi realizada em 2005 e 2006 na aldeia Pimentel Barbosa (ou Etênhiritipá), com população de 560 pessoas, situada na Terra Indígena Pimentel Barbosa (MT). Na cultura Xavante, o termo dawaihõ wapru (sangue nos pulmões) é utilizado para designar doença que se expressa pela presença de sangue no escarro. Os xavante identificam a tuberculose como uma doença que consome os pulmões e produz tosse intensa, sendo transmitida de maneira malévola pelo emprego de magia e/ou feitiçaria (simiõ) , explicou o pesquisador.

Indios_abrasco_centro001_2009.jpgJames Welch argumenta que, no trabalho, há uma incongruência entre o modelo etiológico Xavante e o biomédico em relação à tuberculose. Enquanto o biomédico atribui maior risco de transmissão a contextos relacionados a ambientes fechados, em particular o domicílio, onde o contato entre as pessoas se dá de maneira próxima e continuada, o modelo Xavante enfatiza justamente o contrário: a transmissão, segundo os índios, acontece por meio de magia, sobretudo entre pessoas socialmente distantes, pelo contato indireto em espaços públicos. O caso Xavante exemplifica os desafios a serem enfrentados para o controle da tuberculose entre os povos indígenas face às múltiplas possibilidades interpretativas que derivam de modelos etiológicos que se assentam em bases epistemológicas distintas, disse

Censo entre mulheres indígenas de área rural de Mato Grosso

Ricardo Ventura, pesquisador titular da ENSP/Fiocruz, expôs os resultados da pesquisa O padrão de resposta das mulheres indígenas da área rural de Mato Grosso ao censo 2000 e seus efeitos sobre variáveis demográficas. O estudo utiliza a variável marca dos questionários do censo demográfico de 2000, que corresponde a um registro de que a própria foi a informante, explicou.

Indios_abrasco_centro002_2009.jpgForam calculadas as frequências absoluta e relativa de mulheres que forneceram suas próprias informações ao censo 2000. Posteriormente, testou-se a associação entre número de filhos nascidos vivos e a variável marca (sim/não), ajustando-se para idade e escolaridade da mulher em modelos de regressão logística não condicional.

A análise envolveu 50.609 mulheres brancas, 57.505 pardas, 6.686 negras e 4.349 indígenas. Dentre os resultados, cerca de 15% das mulheres indígenas, entre 15 e 49 anos, informaram seus próprios dados, porcentagem bastante inferior àquela observada entre mulheres de mesma faixa etária dos demais grupos de cor/raça da área rural de Mato Grosso (variando de 48,8% para as pardas a 51,6% entre as brancas). Além de chamar atenção para os efeitos da variável marca na análise dos dados censitários de uma maneira geral, argumenta-se que há especificidades importantes em relação às indígenas, as quais fornecem suas próprias informações ao censo em frequência muito menor se comparado ao perfil dos outros grupos de cor/raça, concluiu.

A importância do diálogo intercultural para resultados de saúde

Em seguida, a aluna de mestrado do programa de Epidemiologia em Saúde Pública da ENSP Juliana Fernandes Kabad falou sobre a importância do diálogo intercultural para o alcance da efetividade e sustentabilidade dos resultados de saúde e dos saberes, práticas e praticantes dos sistemas médicos tradicionais indígenas. A aluna lembrou que a Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas (PNASI) foi legalmente instituída em 2002, de forma a efetivar diretrizes para a execução do Subsistema de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas, que se inseriu em 1999 dentro do SUS. Em conformidade com o que está preconizado pela PNASI, a atenção à saúde deve ser realizada por meio da articulação entre os saberes e práticas em saúde dos povos indígenas com os serviços de saúde, além da devida preparação dos recursos humanos e da participação indígena nos processos de elaboração, acompanhamento e avaliação da atenção à saúde, ressaltou.

Indios_abrasco_centro003_2009.jpgSegundo Juliana, a análise foi feita a partir de descrição sobre o evento intitulado I Encontro Intercultural: o diálogo entre os conhecimentos tradicionais indígenas e os serviços de saúde indígena de Mato Grosso do Sul, Brasil, realizado no mês de dezembro de 2008 na aldeia Caarapó, no Estado de Mato Grosso do Sul. Com base nas manifestações apreendidas durante o referido evento, conclui-se que se faz necessário que a PNASI articule sistemas de saúde para que possa promover a sustentabilidade das ações propostas e, consequentemente, para que as condições de saúde dos povos indígenas sejam sustentáveis, encerrou.

Outros trabalhos apresentados na comunicação coordenada

Eliana Elisabeth Diehl, da Universidade Federal de Santa Catarina, apresentou o trabalho, coordenado por ela, que analisa medicamentos encontrados na chamada farmácia caseira nas casas da tribo Xokleng, localizada na terra indígena de Ibirama-Laklãnõ, em Santa Catarina. No Brasil, ainda são raras as pesquisas que identificam os medicamentos que fazem parte do cotidiano dos povos indígenas, e esse tipo de estudo é uma importante estratégia para a compreensão de como estão inseridos em diferentes realidades, entre elas as indígenas, disse Eliana.

Por meio de entrevistas e questionários aplicados entre março e abril de 2008 em 40 casas de uma das aldeias, foram identificados 456 medicamentos, sendo 21% genéricos, indicando que esses medicamentos não são vistos com bons olhos pelos índios. As análises mostram que, segundo a classificação Anatômica Terapêutica e Química (ATC), 20,2% eram para o trato alimentar e metabolismo, destacando-se os antieméticos (4,4%); 17,5% eram medicamentos para o sistema nervoso, sendo 12,7% outros analgésicos e antipiréticos; 11% eram para o sistema musculoesquelético, principalmente os anti-inflamatórios e antirreumáticos não esteroidais (10,8%); os anti-infecciosos de uso sistêmico corresponderam a 10,8%, a maioria antibacterianos beta-lactâmicos (5,3%). Esses e outros dados do trabalho indicam uma forte medicalização desse grupo indígena, estimulada por uma atenção à saúde caracterizada pelo assistencialismo hipermedicalizante, de caráter curativo, concluiu.

Rafaela Gerbasi Nóbrega, do Centro Universitário de João Pessoa (Unipê), apresentou A concepção potiguara sobre os mecanismos de eficácia terapêutica para a tuberculose e suas implicações na adesão ao tratamento supervisionado, fruto de sua dissertação de mestrado na Universidade Federal da Paraíba. A expositora contextualizou a população indígena Potiguara, que é uma das maiores do Brasil, contando com cerca de 14 mil pessoas distribuídas em 26 aldeias, localizadas em três municípios da Paraíba. O trabalho foi desenvolvido a partir de um estudo qualitativo envolvendo os Agentes Indígenas de Saúde (AIS) e três grupos focais.

Evidenciou-se que o regime terapêutico para a tuberculose entre os Potiguara se caracteriza pela ingestão de chás e garrafadas, além da prática de rezas e banhos, principalmente entre os mais idosos. Contudo, não se trata de uma conduta unânime entre eles que também valorizam o tratamento dispensado pela medicina ocidental, explicou Rafaela. Com relação ao tratamento supervisionado, a adesão a essa estratégia é dificultada não apenas pelas práticas fitoterápicas adotadas, mas, principalmente, pelo estigma da doença em virtude da manifestação alarmante das equipes diante de um caso suspeito, levando o paciente a se expor diante da comunidade e preferir o anonimato previsto pelo tratamento no serviço de referência localizado em outro município.

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