Elsa-Brasil pesquisa fatores determinantes de doenças crônicas

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Doenças cardiovasculares são as maiores causas de mortalidade no mundo desenvolvido, principalmente após os 40 anos de idade, e o diabetes já atinge pelo menos 10 milhões de brasileiros, equivalente a 5,9% da população. Alguns dos fatores que favorecem o aumento do número de casos são comuns às duas doenças, como a obesidade e o sedentarismo. Para conhecer um pouco mais sobre a saúde de parte da população brasileira que vive nos seis maiores centros urbanos do país, o Ministério da Saúde - por meio da Secretaria de Ciência e Tecnologia e Insumos Estratégicos - e o Ministério da Ciência e Tecnologia por intermédio da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) estão financiando o maior estudo epidemiológico realizado na América Latina sobre os fatores determinantes das doenças cardiovasculares e do diabetes. A primeira etapa teve início no segundo semestre de 2008.

O Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto (ELSA-Brasil) está sendo conduzido em seis instituições públicas federais, com 15 mil voluntários entre 35 e 74 anos, devendo ter duração de pelo menos 10 anos. Na Fiocruz, dois mil servidores farão parte dessa etapa do estudo. A pesquisa está sendo desenvolvida por um consórcio de instituições de ensino e pesquisa nas regiões Nordeste, Sul e Sudeste: Fundação Oswaldo Cruz (Rio de Janeiro), Universidade de São Paulo (USP) e as universidades federais da Bahia (UFBA), Espírito Santo (Ufes), Minas Gerais (UFMG) e Rio Grande do Sul (UFRGS). Na Fiocruz, as inscrições de voluntários continuam abertas. Basta enviar e-mail para elsa@fiocruz.br.

Em entrevista ao Informe ENSP, as pesquisadoras Dora Chor, que coordena o estudo no Rio de Janeiro, Marília Sá Carvalho, vice-coordenadora, e Maria de Jesus Mendes da Fonseca, que faz parte da equipe, falaram da importância crescente de informações sobre doenças cardiovasculares e diabetes para a saúde da população e da contribuição que o Elsa-Brasil dará à pesquisa sobre o perfil epidemiológico dessas doenças no país.

Informe ENSP: Qual é o foco da pesquisa Elsa-Brasil?

dora_ent_elsa.jpgDora Chor:
O Elsa-Brasil é a primeira pesquisa de longo prazo realizada no Brasil sobre diabetes e doenças cardiovasculares, cujo foco são os fatores de risco já reconhecidos, mas nessa oportunidade, no contexto brasileiro: gordura, fumo, vida sedentária, entre outros. Mais do que isso: vamos estudar as relações entre esses fatores conhecidos e o contexto social, racial e cultural. Os fatores que estão sendo estudados incluem aspectos relacionados a hábitos de vida, família, trabalho, estresse e fatores genéticos. Graças às pesquisas semelhantes desenvolvidas em outros países, hoje se sabe, por exemplo, da importância de cuidados com a pressão arterial e com a dieta para a prevenção dessas e outras doenças. O estudo visa também sugerir medidas mais eficazes de prevenção e promoção da saúde.

Informe ENSP: Em quanto tempo e que tipo de resultados preliminares são esperados nessa primeira fase da pesquisa?

marilia_ent_elsa.jpgMarília Sá Carvalho:
Acreditamos que, no fim de 2011, os resultados preliminares já estejam disponíveis. A primeira fase de coleta de dados, em todos os seis centros, deverá terminar em setembro de 2010. Nessa primeira fase teremos informações sobre o número de casos novos de diversas doenças cardiovasculares e diabetes.

Dora Chor: Também teremos prevalência (número de casos que existem) e incidência (casos novos que surgiram na pesquisa e que o pesquisado não sabia) de hipertensão arterial, prevalência de sobrepeso e obesidade, de sedentarismo e do fumo. Esses comportamentos são passíveis de serem modificados, ao contrário de fatores de risco genético, especialmente no âmbito das comunidades onde estão sendo realizados os estudos, como a Fiocruz e as universidades federais. Para algumas neoplasias, por exemplo, fatores genéticos são importantes e praticamente impossíveis de serem modificados no momento. Já para as doenças cardiovasculares e diabetes, sabemos que esses fatores de risco são muito importantes e que não cabe só a pessoa mudar, pois há todo um ambiente social que pode facilitar ou atrapalhar essas mudanças.

Informe ENSP: E como está sendo a realização dessa pesquisa no âmbito de instituições federais, onde se pressupõe que a população tenha maior acesso a informações sobre saúde?

Marília Sá Carvalho:
As informações sobre o número de casos não diagnosticados de hipertensão ou diabetes nessa população, que tem mais acesso a serviços de saúde do que a população brasileira em geral, estão chamando a atenção nos seis centros Elsa.

Dora Chor: Estamos achando, na prática, que os homens apresentam maior dificuldade de conhecer sua situação de saúde. Esse pode ser um dos motivos pelos quais procuram menos os serviços de saúde. Trata-se de um fenômeno reconhecido não apenas no Brasil. Como as exigências com a aparência são menores, parecem se incomodar menos com a obesidade, por exemplo.

Informe ENSP: E como isso está se refletindo no número de voluntários masculinos e femininos?

maria_ent_elsa.jpgMaria de Jesus Mendes da Fonseca:
A maioria dos voluntários que procuram espontaneamente o projeto é de mulheres. É um contingente cerca de 10% maior do que o de voluntários masculinos. Ao mesmo tempo, as mulheres remarcam a visita com mais freqüência, possivelmente porque tem mais dificuldade de permanecer nos nossos centros durante as cinco horas que dura, em média, a primeira visita. Cuidar da vida familiar ainda é uma atribuição feminina. É uma realidade.

Dora Chor: Esse é um aspecto que o Elsa-Brasil está explorando também. Será que os problemas da vida familiar, seja da mulher ou do homem, tem impacto sobre o risco cardiovascular e de diabetes? Será que o choque entre carreira e vida familiar tem influência sobre o risco de desenvolver essas doenças? Essas informações, relacionadas especificamente ao contexto brasileiro, e os resultados dos exames traçarão um retrato da situação. Conjugar esses fatores de risco que são menos explorados na epidemiologia internacional com os resultados dos exames objetivos é um dos aspectos interessantes da pesquisa, que servirão como material de investigação para várias gerações de pesquisadores.

Informe ENSP: Que tipo de informação importante vocês destacariam nessa pesquisa?

Dora Chor:
Teremos informações muito originais, que só um país como o Brasil possibilita e que não seriam obtidas em países como Inglaterra ou Suécia. Vamos obter informações sobre a influência da desigualdade socioeconômica, de cor/raça e de aspectos psicossociais, em diferentes regiões do país, nas doenças em estudo. As informações sobre georeferenciamento são inéditas. O Elsa vai avaliar a influência, na saúde cardiovascular e metabólica, do ambiente de moradia no que diz respeito à violência, do acesso a frutas e vegetais frescos, de lugares para praticar exercicio físico, etc. São fatores ligados à vida urbana. Também estamos reunindo informações sobre aspectos relativos à saúde reprodutiva feminina como o uso de tratamento hormonal, por exemplo. Cada vez mais está se comprovando a influência de diversos fatores sobre a saúde, que dizem respeito ao coletivo e não apenas a cada indivíduo separadamente, seja em relação à rede social, ao capital social. Mesmo levando em consideração quanto a pessoa ganha e a escolaridade, a rede de amigos, a rede de contatos, que se chama capital social, parece ter influência na saúde. E o Elsa-Brasil está levantando essas informações e possibilitará o estudo de todas essas informações sobre a saúde, pela primeira vez na América Latina.

Informe ENSP: O Elsa-Brasil vai traçar, então, um retrato da população?

Marília Sá Carvalho:
Não será o retrato da população brasileira, porque ela é muito mais variada do que a nossa coorte de servidores públicos dos seis maiores centros urbanos brasileiros. Trata-se de uma população com emprego fixo e que vive em grandes centros urbanos. Mas também trata-se de uma população que está exposta a muitos condicionantes de saúde como o restante da população brasileira como por exemplo a violência. Mesmo assim, como aconteceu com estudos com populações específicas (enfermeiras, médicos, funcionários públicos) em outros países, muitos resultados poderão ser aplicados ao conjunto do país, principalmente no que diz respeito a políticas de prevenção, detecção precoce e promoção da saúde.

Informe ENSP: Que outro tipo de benefício a pesquisa pode trazer?

Dora Chor:
Todos os centros Elsa são um celeiros de talentos. Por exemplo, a quantidade de jovens pesquisadores e gestores de pesquisa, um nicho de emprego pouco explorado no Brasil, que estão sendo formados na prática é também um dos pontos mais motivadores do estudo. Fazer pesquisa, quando comecei, era muito diferente. Tínhamos que encontrar um tema, arrumar dinheiro, organizar grupos interessados. Isso mudou, de fato, nos últimos 25 anos no Brasil e reflete, sem dúvida, o desenvolvimento da pesquisa no país.

Maria de Jesus Mendes da Fonseca: Temos sido procuradas, com frequência, por pesquisadores que querem ser voluntários, de graça, apenas pra aprender a trabalhar com uma pesquisa deste tamanho. São pessoas entusiasmadas com o estudo. E não é apenas uma questão de emprego, porque não oferecemos emprego nem estabilidade. O objetivo desses pesquisadores é se qualificar a partir deste trabalho.

Informe ENSP: A partir do Elsa-Brasil, que outras pesquisas estão sendo pensadas?

Dora Chor:
Nosso compromisso é com a melhoria da saúde da população brasileira. O Elsa-Brasil foi criado para estudar doenças que atingem a maior parte da população, que só tendem a aumentar e que já acometem crianças e adolescentes por conta das mudanças sociais dos últimos 30 anos. A nossa preocupação é produzir resultados que não só revelem novas relações entre diferentes níveis de determinantes, mas que também possam contribuir para melhorar as políticas públicas para controle dessas doenças.

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