Barbacena: tragédia foi fundamental para processo de reforma psiquiátrica brasileira

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Pelo 27º ano, a ENSP inicia mais uma turma do curso de Especialização em Saúde Mental e Atenção Psicossocial, coordenado pelo pesquisador Paulo Amarante. Com 35 novos alunos, a solenidade de abertura do curso foi realizada na quinta-feira (30/04) enfocando a tragédia, que ocorreu ao longo dos anos no hospital psiquiátrico em Barbacena (MG), por meio da exibição do documentário Em nome da razão, do cineasta Helvécio Ratton.

P_Amarante_dir2009_EspSM.jpgEm sua fala de abertura, o pesquisador Paulo Amarante lembrou que o curso foi pioneiro na discussão da reforma psiquiátrica e em debater uma nova abordagem do sofrimento psíquico no país. "Resolvemos exibir o filme nesta abertura, pois ele está completando 30 anos agora, em 2009, e foi o primeiro trabalho a mostrar para a sociedade brasileira como era o manicômio de Barbacena, uma espécie de campo de concentração e uma instituição reconhecida pelo seu grande poder de extermínio na época", destacou o pesquisador. Os convidados para a abertura do curso foram: o cineasta Helvécio Ratton, o jornalista Hiram Firmino e o psiquiatra Jairo Furtado de Toledo.

H_Ratton_esq2009_EspSM.jpgO cineasta Helvécio Ratton, responsável pelo documentário Em nome da razão, foi o primeiro a se apresentar lembrando que sempre fica emocionado ao rever um documento mostrando "o que os seres humanos são capazes de fazer com outros seres humanos". Quando o documentário foi produzido, o hospital de Barbacena contava com aproximadamente seis mil internos, todos relegados à própria sorte, pois pouco se fazia em termos de tratamento. "Nossa idéia era passar o mesmo sentimento de indignação que nossa equipe teve ao passar quase uma semana dentro do hospital e retratar aquela realidade", explicou Ratton.

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Após sua conclusão, o documentário foi exibido no 3º Congresso Mineiro de Psiquiatria, que contou com a presença de Franco Basaglia, um dos principais nomes internacionais pela reforma sanitária e fim dos manicômios, que lembrou que, pelo mundo, outros hospitais como esse existiam. Ao ser exibido pelo país, Em nome da razão se tornou um marco no movimento de reforma psiquiátrica. Hoje em dia, Helvécio Ratton tem como ideia produzir um novo filme Depois do mundo, uma vez que há um movimento na sociedade brasileira tentando voltar ao debate a necessidade de manicômios. "É fundamental relembrar que o filme é um marco para nós, mas temos que entender o que está acontecendo no presente e nos perguntar o que teremos pela frente nessa discussão", concluiu.

H_Firmino_dir2009_EspSM.jpgO segundo expositor foi o jornalista Hiram Firmino, responsável por uma série de reportagens sobre saúde mental, também em 1979, no jornal Estado de Minas. Desde cedo, Hiram informou que sempre buscou trabalhar com matérias sobre comportamento, e sua experiência ao abrigar e cuidar em sua residência, por aproximadamente um ano, de uma mulher (Maria, a louca de Minas) que sofria de esquizofrenia fez com que o jornalista fosse capaz de escrever tais matérias.

Por conta dos diversos contatos obtidos como jornalista, Hiram revelou que buscou os mais diferentes tipos de tratamento para Maria, sendo que ela sempre relatava as atrocidades que sofria durante suas internações. "Assim, tomei conhecimento da realidade, do que acontecia nos hospitais públicos, bem diferente de onde eu passei com pacientes através de atendimentos particulares", destacou. Dessa forma, Hiram explicou que conseguiu acesso ao hospital de Barbacena e a outros hospícios de Minas Gerais, com apoio da SES-MG, e foi capaz de publicar 12 reportagens em 40 dias, retratando a realidade das pessoas que sofriam de transtornos mentais.

J_Toledo_esq2009_EspSM.jpgEncerrando a mesa de abertura do curso, o psiquiatra Jairo Furtado de Toledo retratou a história do Museu da Loucura, inaugurado em 1996 por meio de uma parceria entre a Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig) e a Fundação Municipal de Cultura de Barbacena (Fundac). O trabalho faz parte do projeto Memória Viva e resgata a história do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena (CHPB), criado em 1903. Segundo o psiquiatra, o hospital cumpriu seu papel até 1930, com o tratamento adequado para a época de até 200 pacientes. Até a década de 60, o hospital chegou a ter cinco mil pacientes. "As pessoas eram internadas sem nenhum critério, atendendo apenas ao que era contrário à sociedade", afirmou.

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Para aumentar os problemas da instituição, Jairo Furtado informou que documentos datados de 1971 comprovam o fornecimento de cadáveres para faculdades de medicina espalhadas pelo país. Em 106 meses, foram vendidas 1.853 peças. "Nós acreditamos que, ao longo de 106 anos, mais de 60 mil pessoas morreram no hospital". As primeiras denúncias de maus-tratos aos pacientes surgiram na imprensa em 1958, mas de forma branda. Com a criação da Fhemig, em 1978, o documentário de 1979 e várias matérias veiculadas pela imprensa é que foram adotadas as primeiras medidas a fim de mudar o trabalho no hospital. Em 1986, há uma democratização na instituição, com uma extensa reforma nos pavilhões e construção de módulos residenciais, e, em 1993, acontece a desativação da última cela da instituição que, embora não estivesse mais em uso, tornou-se um troféu do museu para mostrar os novos tempos do hospital. "Hoje em dia, o trabalho é feito muito mais para pacientes idosos, dando melhor qualidade de vida para eles e com um alto número de profissionais preparados para atender às necessidades desses pacientes", encerrou o psiquiatra.

Durante a abertura do curso, o pesquisador Paulo Amarante apresentou o livro (Colônia) uma tragédia silenciosa, que tem como editor o artista gráfico Edson Brandão e a participação do psiquiatra Jairo Furtado Toledo. A obra revela o trabalho do fotógrafo Luiz Alfredo Ferreira, que esteve em Barbacena, em 1961, para uma reportagem sobre o hospital, num trabalho para a sucursal de Belo Horizonte da revista O Cruzeiro.

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