Globalização e medicalização: a quem interessa?

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Glob_Medic.jpgDeus me livre de ser normal!. A frase, do professor e divulgador brasileiro de hatha ioga Hermógenes, serviu de mote para a pesquisadora Suely Rozenfeld iniciar sua apresentação na sessão científica Globalização e medicalização, realizada na segunda-feira (10/11), pelo Programa de Epidemiologia em Saúde Pública da ENSP e pelo Departamento de Epidemiologia e Métodos Quantitativos em Saúde. A frase reflete a rebeldia do autor e pode nos servir de inspiração. Nós não devemos aceitar de forma acrítica o que é dito. Nós temos que ter uma visão rebelde e contestadora daquilo que nos é apresentado como normal, explicou, antes de começar sua palestra. A apresentação e o áudio do evento estão disponíveis na Biblioteca Multimídia da ENSP.

Para estimular a reflexão dos presentes sobre os processos de globalização e medicalização da vida, Suely traçou três cenários distintos. No primeiro Globalização como e para quem? ela procurou descrever algumas das principais características do fenômeno da globalização, buscando identificar os maiores beneficiados pelas mudanças instauradas na sociedade. No segundo, ela apresentou alguns exemplos do movimento de medicalização da vida promovido pela poderosa indústria farmacêutica. Para finalizar, ela apresentou o caso da Terapia hormonal, indicada durante anos para mulheres na menopausa e, hoje, fortemente contestada pela ciência.

Os grandes vencedores são os poderes econômicos extraterritoriais, que viajam na companhia, entre outros, dos intelectuais

Suely_Rozen_01.jpgRessaltando o papel da mídia em todo o processo, Suely destacou as principais características da globalização, dentre as quais, a trágica passagem do individualismo, uma conquista humana no período do Iluminismo, para o egoísmo exacerbado e para o consumismo, com simultâneo deslocamento da importância da produção e do trabalhador para o consumo e para o consumidor. Além disso, ela citou a substituição da permanência pela velocidade e suas conseqüências; dentre elas a da falta de reflexão, que permite que as enormes contradições existentes acabem passando despercebidas; e a da substituição da qualidade pela quantidade.

No mundo globalizado, a segurança vem dos números e dos experts. A questão é que qualquer figura pública pode ser transformada pela mídia num experto em medicamentos, por exemplo. E o que a gente vê são coisas como o Pelé falando sobre disfunção erétil, afirmou, completando: Os números, por sua vez, são utilizados freqüentemente para garantir a veracidade de informações. O problema é que eles podem ser facilmente manipulados de acordo com os interesses envolvidos.

Para Suely, um dos grandes problemas da globalização é que as conquistas individuais advindas do direito às diferenças foram gradativa e perversamente esvaziadas de seu conteúdo de justiça social e retiradas da área política, o que resultou num crescimento selvagem das desigualdades. Esse processo acabou levando a um colapso das demandas coletivas por redistribuição de renda e pela igualdade, enfatizou.

Segundo a palestrante, os maiores beneficiados por todo esse processo são os poderes econômicos extraterritoriais. Os bancos e as grandes indústrias, como a de armamentos e a de medicamentos, entre outras, são os grandes vencedores. Eles, no entanto, não estão sozinhos. Eles viajam na companhia, entre outros, dos intelectuais, frisou, reiterando a necessidade de os intelectuais retomarem seu papel contestador e transformador da realidade.

Medicalização da vida: quando as doenças se transformam em negócios

Suely_Rozen_02.jpgO fenômeno da medicalização se caracteriza, segundo Suely Rozenfeld, pela transformação da doença em um negócio, por meio do alargamento do limite das doenças para além sua definição científica, o que leva pessoas saudáveis a acreditarem que estão doentes e pessoas que estão um pouco doentes a acreditarem que estão muito doentes. Isso acaba gerando um enorme aumento de mercado para vendedores e administradores de insumos de saúde, como os medicamentos, os equipamentos e os exames laboratoriais, entre outros, explicou.

De acordo com ela, a indústria farmacêutica alimenta a ansiedade das pessoas, por conta de sua fragilidade, e explora a fé que elas têm nos avanços científicos e na inovação. A indústria farmacêutica contrata agências de publicidade qualificadas para promover a criação de novos distúrbios médicos e disfunções, disse, antes de apresentar exemplos, retirados de diversos artigos da revista PlosMedicine (edição de 11/04/2006), de estratégias utilizadas pelos fabricantes para aumentar o consumo de medicamentos para disfunção erétil, para Déficit de Atenção com Hiperatividade na infância (DAH) e para Transtorno Bipolar.

Para finalizar, ela abordou o caso da terapia hormonal e apresentou algumas propostas aos presentes. É preciso, entre muitas outras coisas, estimular os meios de subsistência não monetários, fortalecendo a definir os cidadãos pelo que eles são e não pelo que são capazes de consumir; aproximar a produção acadêmica da vida real; permitir que a ética ocupe o lugar da estética, reverter a fluidez, a fragilidade e a transitoriedade; e estar atento à origem das informações que circulam pelo ciberespaço, defendeu. Nós não devemos resolver nossas angústias rebaixando as expectativas. Temos que querer o melhor!, finalizou.

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