Saúde indígena: uma pauta relevante no Epi2008

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Indios_lide.JPGDoenças infecciosas em comunidades indígenas foi o tema de uma das comunicações coordenadas do VII Congresso Brasileiro de Epidemiologia - XVIII Congresso Mundial de Epidemiologia (Epi2008), realizada sob coordenação do pesquisador da ENSP Ricardo Ventura Santos, do Departamento de Endemias Samuel Pessoa (Densp). Foram apresentados cinco estudos acerca da saúde em comunidades indígenas nas mais variadas regiões do país foram apresentados, três deles por pesquisadores da ENSP. Confira, na Biblioteca Multimídia da ENSP, o áudio desta atividade.

Indios_Reinaldo.jpgReinaldo Souza dos Santos, pesquisador do Departamento de Endemias da ENSP, abordou o Padrão espacial da malária em terras indígenas do estado de Rondônia. A doença, endêmica na Amazônia, tem exercido, historicamente, forte pressão sobre a saúde das populações indígenas. O estudo analisou a distribuição dos casos de malária em 20 terras indígenas, divididas em três grandes zonas, no estado de Rondônia Zona 1: Bacia dos rios Guaporé/Madeira; Zona 2: Serra dos Pacaas-Novos; Zona 3: Bacia dos rios Ji-Paraná/Aripuanã , durante os anos de 2003 e 2006. A Zona 1 corresponde a áreas de risco que apresentam características ambientais marcadas pelas várzeas de grandes rios, com alta densidade do vetor. Já na Zona 3, o principal problema é o funcionamento de garimpo ilegal de diamantes, o que resulta em profundas alterações ambientais e alto fluxo de garimpeiros.

Foram encontrados 4160 casos de malária em 14 terras indígenas e a maioria dos casos em homens. Cerca de 2/3 de todos os casos (67,09%) registrados, se concentraram nas terras indígenas Roosevelt e Pacaas Novos A distribuição da malária dentro das terras indígenas de Rondônia é inconstante e heterogêneo, e a ecologia humana constitui elemento decisivo para o entendimento da dinâmica da doença na população indígena e, pelo menos em parte, explica as diferenças observadas entre as três zonas analisadas, concluiu Reinaldo.

Indios_Basta.JPGA importância da quimioprofilaxia no controle da tuberculose em populações indígenas: o caso Suruí de Rondônia foi a pesquisa apresentada pelo também pesquisador do Departamento de Endemias da ENSP, Paulo César Basta. Segundo ele, o fato de a tuberculose permanecer como um dos principais problemas de saúde pública no Brasil tem levado o grupo de pesquisa em saúde indígena da ENSP a desenvolver, desde 2002, pesquisas sobre a doença entre os índios. Num estudo realizado em 2005, com 993 pessoas de 138 famílias, observou-se prevalência de 30% de infecção na população estudada. Nesse contexto, 23 crianças menores de 15 anos foram indicadas à quimioprofilaxia [administração de Isoniazida em pessoas infectadas pelo bacilo]. Dois anos depois, o grupo retornou para uma nova avaliação com 20 crianças (87% das indicações), das quais apenas seis haviam concluído a quimioprofilaxia conforme indicado. Dessas 20 crianças, cinco desenvolveram tuberculose e foram submetidas ao tratamento específico. Isto representa incidência de 25.000/100.000, ou seja, ¼ da população-alvo específica, afirmou Paulo César.

As nove crianças restantes tiveram seus dados clínico-epidemiológicos confrontados com as recomendações do Ministério da Saúde, o que resultou na manutenção da indicação da quimioprofilaxia para sete delas. Embora tenha havido redução na incidência de tuberculose nos últimos anos, o pesquisador revela que a doença permanece causando grande impacto entre os Surui e acometendo um número expressivo de crianças. Neste caso, os achados revelam que a quimioprofilaxia teve indicação precisa, e que se tivesse sido realizada em momento oportuno, cinco crianças teriam sido poupadas do adoecimento, enfatizou.

Indios_Girardi.jpgA pesquisadora Francielli Girardi, da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), apresentou os resultados do estudo Prevalência de enteroparasitas na comunidade indígena Kaingang de Iraí-RS. De acordo com ela, as dificuldades de ordem social, cultural e econômica enfrentadas pelas comunidades indígenas impõem um modo de vida diferente de sua cultura e trazem problemas que refletem gravemente na saúde dessa população, que vivem em condições precárias de moradia, alimentação e saneamento básico. O estudo identificou os enteroparasitas intestinais em crianças de 0 a 12 anos, separando-as por sexo. Das 51 crianças examinadas, 76% estavam parasitadas e 24% apresentaram amostras negativas. Não foi observada diferença significativa de contaminação em relação ao sexo dos indivíduos, apenas em relação à faixa etária, afirmou.

O maior índice de positividade foi encontrado na faixa etária de 5 a 8 anos (33%), seguido da faixa etária de 9 a 12 anos (25%). O menor índice, por sua vez, foi registrado na faixa etária de 0 a 4 anos (18%). Entre os parasitas encontrados com mais freqüências estão a Trichuris trichiura e a Ascaris lumbicoides. Ao identificar positivamente os altos índices de infecção, a pesquisadora sugere a necessidade de implementação de medidas preventivas urgentes, que abranjam todas as famílias da comunidade, além de medidas de higiene que evitem a disseminação ambiental, uma vez que a comunidade não possui sanitários em suas residências, o que facilita a contaminação do solo e da população.

Indios_Levino.JPGConfrontar dados epidemiológicos sobre hanseníase em população indígena em três municípios do Amazonas foi o foco da pesquisa, cujos resultados parciais foram apresentados por Antonio Levino da Silva Neto, do Centro de Pesquisas Leônidas & Maria Deane, da Fiocruz. Com base numa avaliação das ações programáticas de controle da tuberculose e hanseníase em áreas indígenas de Autazes, Eirunepé e do município de São Gabriel da Cachoeira, o estudo detectou 386 casos da doença entre os anos de 2000 a 2005. Durante todo o período de estudo a média do coeficiente de prevalência na população indígena de Autazes foi de muito alta endemicidade e o coeficiente de detecção foi hiperendêmico. Eirunepé apresentou a notificação de apenas um caso de hanseníase entre indígenas, enquanto em São Gabriel da Cachoeira os coeficientes de prevalência e detecção foram de média endemicidade.

Segundo o pesquisador, os resultados preliminares mostram que, dos três municípios estudados, Autazes é o que apresenta mais casos, com predomínio de formas muitbacilares e com maior proporção de incapacidade, o que pode sugerir diagnóstico tardio e endemia oculta.

Indios_Andrey.jpgO último expositor, Andrey Moreira Cardoso, também do Departamento de Endemias da ENSP, apresentou o trabalho Estado vacinal como fator protetor para infecção respiratória aguda em crianças indígenas guarani menores de cinco anos hospitalizadas no Sul e Sudeste do Brasil: um estudo caso-controle. Para justificar o projeto, o palestrante lembrou que as ações de vacinação para os povos indígenas têm sido uma rotina há décadas e se intensificou a partir da implantação do Subsistema de Atenção à Saúde Indígena, em 1999, inclusive com a definição de um calendário vacinal próprio. A partir dessa informação, o estudo teve como objetivo analisar o papel protetor da situação vacinal sobre as Infecções Respiratórias Agudas (IRA) em crianças hospitalizadas provenientes das 82 aldeias dessas regiões.

A análise, segundo ele, demonstrou maior proporção de crianças vacinadas no grupo controle, para todas as vacinas, exceto contra pneumococo e rotavírus. Não foi observado papel protetor de nenhuma das vacinas sobre o risco de IRA, analisadas individualmente, bem como para o conjunto das vacinas que protegem especificamente contra IRA e nem para o conjunto de todas as vacinas, afirmou. O pesquisador acredita que a possibilidade de perdas de dados relacionadas a migrações próprias do povo Guarani tenham influenciados nos resultados, assim como as menores proporções de crianças vacinadas com imunobiológicos específicos contra IRA. Ainda assim, vale ressaltar que a imunização de um indivíduo decorre de inúmeros fatores, sendo necessárias análises mais detalhadas, com amostras maiores, para elucidar o papel protetor da vacinação contra as IRA, encerrou.

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