Doenças crônicas não transmissíveis em pauta no penúltimo dia do Epi2008

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Discutir a epidemiologia e o planejamento para o tratamento de doenças crônicas não transmissíveis foi o objetivo de uma comunicação coordenada realizada, na quarta-feira (23/09) durante VII Congresso Brasileiro de Epidemiologia - XVIII Congresso Mundial de Epidemiologia. Entre os projetos apresentados, dois são coordenados pela vice-diretora de Pesquisa da ENSP, Margareth Portela, e foram expostos pelas pesquisadoras Cláudia Caminha Escosteguy (Hospital dos Servidores do Estado) e Sheyla Maria Lemos Lima (ENSP/Fiocruz). Confira, na Biblioteca Multimídia da ENSP, o áudio desta exposição.

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O estudo apresentado por Cláudia Caminha Escosteguy Construindo estratégias para implementação de diretrizes clínicas na atenção ao infarto agudo do miocárdio (IAM) no SUS aborda um relevante problema de saúde pública no Brasil e no mundo e faz parte do projeto Construindo Estratégias e Avaliando a Implementação de Diretrizes Clínicas no SUS (Edital 37/2004 do CNPq), que inclui ainda outros dois apresentados no Epi2008: um pela própria Margareth Portela e o outro por Sheyla Lemos. O projeto tem como perspectiva o desafio da incorporação da gestão da clínica como dimensão da gestão nas organizações de saúde e o entendimento de que as iniciativas voltadas para a melhoria da qualidade assistencial precisam ser integradas e conduzidas no nível organizacional, afirmou Cláudia, destacando que, no caso específico do trabalho que estava sendo exposto, o objetivo é apresentar um programa multidisciplinar de implementação de diretrizes clínicas na atenção ao IAM em uma grande emergência pública, no caso, o Hospital Geral de Bonsucesso.

epi2008_claudia_esq.jpgDurante o estudo, foram capacitados 256 profissionais, entre médicos, enfermeiros, maqueiros e outros, para a identificação dos sintomas de infarto. Após a avaliação de antes e depois da implementação de estratégias de treinamento multidisciplinares e facilitação da adesão das equipes da emergência, incluindo elaboração de material didático e de sensibilização, obteve-se como resultado um expressivo impacto no espaço hospitalar e acredita-se que a sua multiplicação para outras unidades pode contribuir para melhorar a assistência ao o infarto agudo do miocárdio no SUS.

A relação entre judicialização da saúde e diabetes foi o foco da exposição de Kammilla Éric Guerra de Araújo, da Escola de Saúde Pública de Minas Gerais. O trabalho leva em consideração a crescente demanda por medicamentos e acesso a serviços especiais de saúde para diabéticos no estado mineiro através da justiça, mas que muitas vezes já fazem parte da lista de procedimentos atendidos pelo programa Hiperdia, criado pelo Ministério da Saúde em 2002. Já adotado em Minas Gerais, o Hiperdia é um Sistema de Cadastramento e Acompanhamento de Hipertensos e Diabéticos, que institui uma política pública nacional de controle dessas doenças, incluindo a oferta de medicamentos e outros insumos ao portador.

epi2008_kammilla_dir.jpgNosso estudo visa confrontar essa política pública do Diabetes mellitus em Minas Gerais e o fenômeno da judicialização da saúde caracterizado pela acionamento do Poder Judiciário para garantir o direito integral à Saúde proposto pela Constituição Federal de 1988, revelou. Foram analisadas as decisões judiciais emanadas pelo Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) no ano de 2006, contendo uma série de pedidos como medicamentos, internações, próteses, cirurgias, fraldas, suplementos alimentares, pagamento de faturas de energia elétrica (para funcionamento de aparelhos indispensáveis à sobrevivência do individuo requerente), tratamentos fora do domicílio, entre outros. Dos 1.086 pedidos analisados, 8,1% envolvem pedidos de medicamentos e instrumentos de controle para o diabetes que já são fornecidos por meio do Programa Hiperdia Mineiro. Isso comprova, segundo a pesquisadora, a necessidade urgente de se ampliar o diálogo entre o judiciário e o sistema de saúde no estado.

A terceira parte do projeto Construindo Estratégias e Avaliando a Implementação de Diretrizes Clínicas no SUS foi apresentado pela pesquisadora da ENSP, Sheyla Lemos. Denominado Utilização de diretrizes clínicas e resultados na atenção básica à hipertensão arterial, o estudo buscou identificar estratégias facilitadoras da implantação de diretrizes clínicas de hipertensão arterial em uma unidade de atenção básica, focalizando especialmente os efeitos produzidos pelo Programa Saúde da Família (PSF) e pelo Programa Remédio em Casa (PRC) sobre a adesão dos profissionais e sobre os resultados assistenciais alcançados. Nós utilizamos dados secundários de prontuários de uma amostra de pacientes com hipertensão, estratificada segundo matrícula ou não nos dois programas referidos, compondo quatro subgrupos, revelou.

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No total de indivíduos estudados (472), fatores associados às variações nos níveis das pressões arteriais sistólica e diastólica foram estudados através de modelos de regressão linear com efeitos randômicos, considerando um banco de dados com estrutura em painel, contemplando medidas repetidas no decorrer do tempo. O grupo de pesquisa acreditava encontrar um efeito positivo das estratégias PSF e PRC na adesão às diretrizes clínicas e resultados assistenciais, no entanto, não houve diferenças estatisticamente significativa entre eles na última consulta em relação à média de PA sistólica observada. Em geral, a adesão às diretrizes clínicas foi muito baixa. O estudo não trouxe evidências favoráveis ao papel do PSF, exceto por alguns aspectos relativos à adesão dos profissionais, mas trouxe evidências favoráveis ao papel do PRC em relação aos resultados assistenciais alcançados, encerrou.

Indicadores de mortalidade por doenças cardiovasculares e diabetes mellitus: o papel da regionalização do sistema de saúde no estado de São Paulo. O trabalho apresentado por Tereza Etsuko da Costa Rosa, da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo teve como objetivo analisar indicadores de estrutura, processo e de resultados da atenção ao diabetes e hipertensão arterial em cinco grupos regionais paulistas: Campinas, Piracicaba, São José do Rio Preto, Mogi das Cruzes e São José dos Campos. Foram analisados indicadores de estrutura (porte populacional dos municípios, IDH, índice de hospitais, índice de leitos de UTI, índice de ambulatórios, índice de recursos humanos, tipo de gestão e recursos financeiros), de processo (cobertura de Estratégia Saúde da Família [ESF], cobertura de consultas básicas e especializadas, índice de evasão/invasão e esforço gestor) e de resultados (% de mortalidade precoce por Acidente Vascular Cerebral e por complicações de DM) para a obtenção dos resultados esperados.

epi2008_tereza_esq.jpgO estudo constatou que São Paulo é um dos estados com menor cobertura de PSF em todo o país São José do Rio Preto, por exemplo, conta com pouco mais de 0% de cobertura, enquanto que este índice não chega a 5% em Mogi das Cruzes. Em contrapartida, segundo a pesquisadora, nenhuma das cinco cidades apresentou IDH menor que 0,65, sendo consideradas de médio para cima nesta questão. Entre as conclusões obtidas está o fato de que a integralidade da atenção nesta linha de cuidado parece depender não só de um desenho tecnicamente adequado da distribuição dos serviços pelo território, mas também de práticas adequadas de gestão e de cuidado.

Por fim, a pesquisadora Francisca Maria Assmann Wichmann, da Universidade de Santa Cruz do Sul, apresentou o trabalho Prevalência de fatores de risco para doenças e agravos cardiovasculares e oportunidades perdidas em sua detecção em unidades de saúde no município de Santa Cruz do Sul/RS, cujo objetivo era analisar a ocorrência de oportunidades perdidas na detecção de fatores de risco cardiovasculares e medir a freqüência dos mesmos, entre a 27º e 28º semana epidemiológica no ano de 2007, em unidades básicas de saúde com e sem estratégia saúde da família. A equipe observou que em mais de 90% não é feita a verificação de peso, estatura, circunferência abdominal dos pacientes e nem abordadas questões sobre o fumo e a ingestão de bebida alcoólica, bem como inquéritos sobre alimentação, atividade física e alguma outra doença. O estudo constatou uma prevalência de 52,8% de excesso de peso e risco cardiovascular em 81% dos pacientes.

Por fim, os resultados apontam para falta de estratégias das unidades na identificação dos fatores de risco para as doenças não transmissíveis. O estudo constatou uma forte associação das variáveis escolaridade, atividade física, obesidade, gordura abdominal; além da ausência de atividades de prevenção em relação aos riscos - tabagismo, sedentarismo, alcoolismo, obesidade/excesso de peso, hipertensão arterial.

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