Especialistas debatem produção de sentidos na Saúde

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vinhetaabrasco.jpg Moacyr Scliar, da Faculdade Federal de Ciência Médicas de Porto Alegre, José Ricardo Ayres, do Departamento de Medicina Preventiva da USP, Kenneth Rochel, do Instituto de Medicina Social da Uerj, Paulo Buss, presidente da Fiocruz, e Naomar de Almeida Filho, reitor da Universidade Federal da Bahia (UFBa), foram os debatedores do painel Produção dos Sentidos da e na Saúde ou o que quer dizer, afinal, isso cujo nome é saúde?, que abordaram com grande abrangência a definição da saúde, sua evolução e sua relação com a doença. O painel foi realizado no último dia (25/08) do Abrascão.

Moacyr Scilar abordou os conceitos e as diferentes interpretações da saúde através do tempo. Ele lembrou que o conceito de saúde reflete condições econômicas, políticas, culturais e que tê-la é a recompensa por uma vida virtuosa. Scilar citou a civilização grega, que relacionava saúde ao equilíbrio e à harmonia; a Idade Média, onde esse conceito estava ligado ao binômio pecado/fé, com o afastamento dos doentes; a Idade Moderna, com as regiões doentias, a topologia da doença, onde temos o surgimento da medicina tropical, e o Evolucionismo, onde algumas doenças estariam a favor da sobrevivência da espécie. Também temos modelos que associam a saúde ao equilíbrio entre a mente e o corpo, às crenças e ao estilo de vida e aos hábitos. O fumo, por exemplo, foi uma prática condenada durante anos, mas com o passar do tempo pessoas aprenderam a fumar e se tornou um hábito. Muitos também definem saúde apenas como a simples ausência de doenças.

José Ricardo Ayres ressaltou três pontos fundamentais relacionados à saúde. Um deles é o caráter contrafático da saúde, pois ao mesmo tempo que ela é indispensável às nossas vidas, é difícil conceituá-la. O segundo ponto diz respeito à distinção entre êxito técnico e sucesso prático. Para Ayres, êxito técnico são elementos ligados à saúde que podem ser conceituados, transformados em objeto e trabalhados. A doença, por exemplo, é mais fácil de definir, podendo-se extrair conceitos e interferir nela. Saúde é algo que perseguimos para sermos felizes, assim como o sucesso prático. Portanto, não pode ser tratado como objeto, não pode ser definido. Saúde e felicidade são coisas que não somos capazes de definir, mas também não abrimos mão. E aí vem o terceiro ponto, que diz respeito ao fato de que saúde será sempre um sucesso prático. Para o palestrante, entender o conceito de saúde pressupõe descobrir nosso projeto de felicidade.

Em seguida, Kenneth Rochel disse que a discussão sobre o conceito de saúde é recente e se acirrou apenas a partir das décadas de 1960 e 1970, quando se passou a discutir alguns empecilhos e impactos com que a medicina se deparava. Segundo ele, a definição de saúde apenas como a ausência de doença faz com que o paciente deixe de ser importante e passe a ficar em segundo plano, marginalizado. Em uma situação dessas, não definir doença é mais problemático do que não definir saúde, avaliou. Kenneth concluiu lembrando que a saúde compreendida amplamente deixa de ser um problema de saúde, não mais alcançada por seus profissionais, cuja função seria remover os obstáculos (doenças) que impedem os sujeitos de viverem seus projetos de felicidade.

Paulo Buss discorreu sobre o tema dos determinantes sociais da saúde e sua questão na gênese da saúde pública moderna a partir do momento que surge a indústria, o proletariado urbano e as grandes cidades européias, pois as conseqüências desses avanços eram determinantes para os problemas de saúde pública e geravam prejuízos financeiros. Buss lembrou que no final do século XIX os determinantes sociais entraram em declínio, pois as doenças infecciosas passaram a receber maior atenção dos profissionais em saúde. Nesse momento, tivemos o império das tecnologias médicas com o surgimento da atenção individual, do desenvolvimento de equipamentos e de medicamentos. O presidente da Fiocruz ainda falou sobre outras promessas de ressurgimento dos determinantes sociais, mas que caíram no reducionismo. Um exemplo foi a preocupação com a baixa resposta do império das tecnologias médicas. Num determinado momento, houve críticas constantes à baixa resposta do império das tecnologias médicas. A partir daí, a ONU fez um esforço para tentar explicar as causas dos problemas. Porém, mais uma vez, essa tentativa foi reduzida aos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM). Temos que construir um belo movimento de enfretamento dos determinantes sociais, que são as causas das causas, pois a sociedade brasileira precisa desse trabalho. Com isso, vamos dar uma virada para conseguirmos a felicidade e a saúde, destacou.

Por fim, Naomar de Almeida ressaltou que a mesa é mais uma oportunidade de avançar nessa discussão, de extrema importância, e já debatida há bastante tempo. O reitor da UFBa citou os diferentes conceitos de saúde já abordados na mesa, que a definem como a ausência de enfermidade; como função ou desempenho; como equilíbrio, e a umas da expressões da ideologia burguesa, de saúde como valor ou bem. Ele ratificou que é fácil definir o conceito de doença, mas o de saúde não tem limite, pois cada pessoa tem sua saúde. É um elemento tão próprio, tão singular que pode não ser objeto de investigação, disse.

O palestrante falou, ainda, sobre a possibilidade de superar a questão proposta na mesa e da definição dialética de saúde. "Esse é o momento de resolvermos o ponto de discussão desta mesa, ou seja, se é possível uma definição positiva ou negativa da saúde. Devemos entender que é possível ter conceitos, onde a imposição do é ou não é pode ser superada pela possibilidade de ser ou não ser. O conceito tem grande utilidade, mas também é um regulador de práticas. Além do mais, a saúde é um conceito dialético, pois os seres podem ser ou não ser, além de ser e não ser", concluiu.

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