Missão de divulgar ciência no Brasil é redobrada, diz Alicia Ivanissevich

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A editora da revista Ciência Hoje e vencedora do Prêmio José Reis de Divulgação Científica diz que a grande distância entre comunidade científica e o público leigo obriga o jornalista científico que atua no país a "começar do bê-á-bá"

A trajetória de Alicia como jornalista especializada em ciência teve início em 1985, no informativo semanal da revista Ciência Hoje (atual JC). Graduada pela UFRJ, tem especialização em divulgação científica pelo Wellcome Centre for Medical Science (Inglaterra).

Em 1992, quando trabalhava na editoria de ciência do Jornal do Brasil, recebeu a menção honrosa do Prêmio José Reis. Há onze anos atua como editora executiva da CH.

Leia a entrevista concedida por Alicia ao Jornal da Ciência:

O que representa ganhar o Prêmio José Reis?

Acho que é o reconhecimento de mais de duas décadas de trabalho na área de jornalismo científico. Sou muito agradecida ao Instituto Ciência Hoje, principalmente aos diretores atuais e, em especial, às pessoas que me convidaram a entrar na área de jornalismo científico, que foram Otávio Velho [antropólogo do Museu Nacional e vice-presidente da SBPC] e Ennio Candotti [ex-presidente da SBPC e um dos fundadores da Ciência Hoje]. Entrei pelas mãos deles aqui na revista e gostei tanto que fiquei. Acho que o prêmio representa isso, um reconhecimento de todo esse trabalho de divulgar a ciência e de levá-la ao público leigo.

Por tudo o que você observou ao longo de sua trajetória, o que mudou na divulgação científica no Brasil?

Quando comecei no jornalismo científico éramos meia dúzia de gatos pingados e havia uma única publicação, que era a Ciência Hoje, um ou outro programa de rádio, como o Tome Ciência. Creio que o Globo Ciência começou logo depois. Era pouquíssima gente trabalhando na área e poucos meios divulgando ciência. E isso foi crescendo, na década de 90 já tinha multiplicado muito, tanto o número de pessoas trabalhando quanto os meios. Hoje em dia, com as novas tecnologias, Internet, a própria rádio e televisão e os canais por assinatura, os programas que transmitem ciência para a sociedade de forma acessível cresceram muito. E hoje já somos um grupo grande de jornalistas científicos. Poderia citar dezenas de pessoas que estão trabalhando na área com muita qualidade, profissionais que poderiam ganhar esse prêmio também.

E com relação à forma e ao conteúdo, o que mudou?

A gente aprendeu um pouco ao longo desses anos. Não sei se o conteúdo, mas a forma de divulgar ciência com certeza melhorou. Temos buscado formas novas e melhores e acredito que conseguimos. Mas é uma estrada que ainda tem muita coisa para se fazer. Acho que a imagem ajuda muito, seja em programas de televisão ou até mesmo em veículos impressos, porque você pode explicar melhor através dela. Acho que a gente aprendeu e tem melhorado, e a tendência é melhorar ainda mais.

O que é ser um bom jornalista científico?

Gosto de defender a idéia de que, primeiro, tem que ser um bom jornalista, antes de ter qualquer especialização. E um bom jornalismo, infelizmente, a gente aprende hoje em dia mais na prática do que nos cursos de comunicação. Embora eu não menospreze essa formação, com certeza aprendi muito mais na prática. Além disso, científico ou não, o jornalista precisa saber ouvir bem a fonte. Não ter medo de fazer perguntas que podem parecer ridículas, simples, porque acho que se a gente não entender e é o que sempre falo para os estagiários , ninguém vai entender. Precisamos ser bons intérpretes e achar formas de divulgar que não sejam tediosas. Procurar usar o humor ou, quando não couber, buscar uma história que seja palpitante, que desperte o interesse. O que poderia falar para jornalistas nessa área é que leiam muito, que se interessem por diversas áreas da ciência, que procurem fazer estágio nessa área, que trabalhem na prática com isso para poder aprender. É fundamental também que conheçam a comunidade científica, que vai ser a fonte da notícia. Os cientistas são a notícia, então conhecer profundamente a sociedade científica é importante. Comparando com a música, você tem que ser um bom intérprete. Não estamos criando música, não somos compositores, mas temos que ser bons intérpretes, saber tocar um bom instrumento com qualidade.

Como você vê, hoje, a relação entre a fonte, neste caso os cientistas, e os jornalistas?

Acho que ainda existem algumas pessoas que têm uma resistência com o jornalista, de modo geral, e com a grande imprensa isso é mais difícil. Muitas vezes os cientistas dizem "ah, se é para a Ciência Hoje, tudo bem". Eles acham que é diferente. Para mim, há ainda um preconceito com relação à mídia, aos jornalistas. Claro que também tem colegas nossos que acabam fazendo um mau trabalho, como em qualquer profissão. Existem bons jornalistas e bons cientistas, assim como maus jornalistas e maus cientistas. É preciso, então, um trabalho em conjunto. Os cientistas têm que mostrar seu trabalho sem preconceito, tentar explicar o máximo. Porque, quanto mais eles explicarem, mais fácil vai ser para os jornalistas transmitirem seu trabalho de forma simples. Mas, em geral, creio que diminuiu esse preconceito do cientista em relação ao jornalista. Cada vez mais eles estão abertos, porque precisam da imprensa, da mídia. É uma ponte que ainda está em construção, mas que já dá para passar por ela de vez em quando. Há momentos felizes, em que a música sai afinada. E isso tende a melhorar, desde que, do nosso lado, a gente consiga melhorar nosso aprendizado, nossa forma de divulgar, nos aperfeiçoarmos como profissionais. E, do lado deles, é preciso que estejam abertos para nos receber, para que possamos, afinal de contas, divulgar seu trabalho, que é o que eles querem.

Em sua conferência de laureada na Reunião Anual da SBPC, em Campinas, no dia 15 de julho, você vai falar sobre a missão de divulgar a ciência. Em resumo, qual é essa missão?

A missão de divulgar ciência num país como o Brasil é redobrada, é muito diferente do que em países como Inglaterra e EUA, que têm uma tradição de divulgação científica. Onde existe uma revista como a Scientific American, de 150 anos, ou onde existem revistas semanais de divulgação científica, como a inglesa New Scientist. E que também têm um povo que, quando você entra no metrô, pode ver que todo mundo está lendo alguma coisa. Já no Brasil, além dos analfabetos funcionais, que até sabem escrever mas não conseguem compreender o que lêem, temos os analfabetos científicos. Pessoas que não sabem lidar com equipamentos, não conseguem se conectar à Internet, não têm nenhum tipo de sabedoria sobre os instrumentos que os cercam, e que são tecnologias desenvolvidas por pesquisadores. A distância entre a comunidade científica e o público é enorme, então a missão de divulgar ciência no Brasil é muito maior. A gente tem que começar do bê-á-bá, falar de forma simples. O Instituto Ciência Hoje foi muito feliz quando criou a Ciência Hoje das Crianças, porque acredito que a forma mais eficaz de "alfabetizar cientificamente" essa população é começar desde a infância. É a criança que está ali, pura, e leva para casa o conhecimento e multiplica, passa para os pais e irmãos. Esse é um meio muito feliz que o Instituto criou, e acho que é preciso pensar em programas voltados para crianças. Temos que começar do zero, junto com as escolas. Embora não tenhamos a missão de educação como o ensino regular, temos esse papel de auxiliar e fornecer material para que as crianças desde cedo a se interessar por ciência.

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