Pesquisadora recebe prêmio por estudo sobre usuários de drogas portadores de HIV/AIDS

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capa_trabalho_hiv_2008.jpgA tese de doutorado Usuários de drogas vivendo com HIV/AIDS: Análise de fatores associados à sobrevida e à aderência ao tratamento, embora ainda não tenha sido defendida pela pesquisadora do Departamento de Ciências Sociais (DCS/ENSP), Monica Malta, já rendeu frutos. O subestudo Dez anos de acesso gratuito e universal ao tratamento para HIV/AIDS: Avaliando o impacto da resposta brasileira à epidemia de AIDS entre usuários de drogas, que faz parte da tese, ganhou o prêmio que é concedido às melhores pesquisas epidemiológicas realizadas por alunos de doutorado na área de dependência química.

O subestudo analisou a sobrevida de todos os usuários de drogas que vivem com HIV/AIDS e são acompanhados por meio da rede pública do país. O prêmio foi concedido pelo National Institute on Drug Abuse (NIDA), que faz parte do National Institutes of Health (NIH), órgãos vinculados ao governo dos Estados Unidos. O trabalho premiado analisou cerca de 30 mil pessoas e traçou uma comparação entre dois grupos distintos de indívíduos vivendo com HIV/AIDS: homossexuais ou bissexuais masculinos e os usuários de drogas injetáveis. Para o estudo, recortamos apenas esses grupos, mas existe uma quantidade enorme de pessoas vivendo com HIV/AIDS no Brasil e no mundo. Nesta parte do estudo, focamos a sobrevida desses grupos específicos", disse ela.

"A análise tem, como ponto de partida, o diagnóstico de AIDS. Temos um histórico com detalhes sobre as datas de detecção do HIV, da realização de exames laboratoriais, da retirada dos medicamentos e muitas outras informações. Acompanhamos o tratamento da doença e a situação atual de saúde do paciente, comentou Monica. De acordo com a pesquisadora, a escolha desse grupo de controle - os homossexuais masculinos - se deu pelo fato de que diversos estudos anteriores têm apontado esses pacientes como sendo mais aderentes ao tratamento. As pesquisas apontam que os homossexuais estão mais ligados ao ativismo político e a movimentos sociais. Além disso, eles geralmente apresentam um maior grau de escolaridade quando comparados aos usuários de drogas injetáveis, disse ela.

Toda pesquisa de doutorado de Monica foi feita com base em dados secundários provenientes do Programa Nacional de DST e Aids (PN-DST/Aids) do Ministério da Saúde. A tese foi orientada pelo coordenador do Programa de Epidemiologia em Saúde Pública da ENSP, Francisco Inácio Bastos, e pela pesquisadora da Universidade da Califórnia Steffanie Anne Strathdee. A defesa do doutorado de Monica está prevista para 24 de junho e será realizada na ENSP.

Artigos e resumos também são frutos do mesmo trabalho

Além do prêmio, o estudo rendeu também dois artigos para revistas indexadas e três resumos de trabalhos para congressos. Todos eles escritos em inglês. O primeiro artigo Adherence to antiretroviral therapy for human immunodeficiency virus/acquired immune deficiency syndrome among drug users: a systematic review já foi aceito pela Revista Addiction e será publicado neste bimestre. O artigo apresenta uma revisão sistemática sobre os fatores associados à maior aderência ao tratamento contra a AIDS entre usuários de drogas, disse Monica.

M_Malta_HIV_2008.jpgO segundo artigo Adherence to Antiretroviral Therapy among HIV-infected Drug Users: A Meta-analysis é um desdobramento do primeiro e apresenta uma análise estatística, chamada de meta-análise. O principal objetivo foi obter uma análise da aderência ao tratamento para AIDS entre usuários de drogas, de acordo com os exames identificados na revisão sistemática. Neste estudo, foram analisados 41 estudos com dados sobre a aderência ao tratamento para AIDS de mais de 15 mil pacientes. Queremos conhecer o contexto mundial dessa realidade, as características e comportamentos dessas pessoas. Para isso, construímos essa grande revisão, comentou a pesquisadora. Segundo Monica, todos os artigos e resumos foram escritos em parceria com outros pesquisadores da ENSP e de outras instituições de ensino nacionais e internacionais.

Os três resumos, enviados para congressos, foram elaborados no formato de apresentação oral. O primeiro já foi apresentado no Fórum Internacional do National Institute on Drug Abuse (NIDA), mesma instituição que concedeu o prêmio à Monica Malta. Além desse, mais dois trabalhos serão apresentados no XVIII Congresso Internacional de Epidemiologia de Porto Alegre e no XVII Congresso Internacional de AIDS no México, que serão realizados, respectivamente, em setembro e em agosto. Para cada congresso, foi construído um trabalho que seguiu uma linha de pesquisa diferente, porém, sempre com a mesma população: portadores de HIV/AIDS que são usuários de drogas, apontou a pesquisadora.

Apesar de o país possuir um Programa Nacional de AIDS reconhecido internacionalmente como inclusivo, gratuito e universal, percebemos, através do estudo de sobrevida, que dentro do grupo de pessoas acompanhadas por este programa, existe ainda uma fatia de pacientes que não tem acesso universal, como é preconizado pelo SUS. Isso pode ser visto principalmente entre os usuários de drogas. Seja por conta de questões pessoais, como, por exemplo, padrão de vida desregrado associado à dependência química, que pode levar a problemas no acesso e na aderência ao tratamento; seja por outras questões, como a inexistência de uma rede de apoio adequada às múltiplas necessidades destes pacientes, ou outros aspectos. O fato é que usuários de drogas vivendo com HIV/AIDS tendem a começar o tratamento tardiamente, e, conseqüentemente, tendem a ter uma menor resposta ao tratamento e uma sobrevida menor do que de outras populações, indicou a pesquisadora.

Segundo ela, é preciso ter uma atenção especial com esses pacientes pela complexidade que é tratar pessoas vivendo com HIV/AIDS e que também são dependentes químicas. Muitas vezes elas também apresentam coinfecções importantes como HIV e Hepatites virais crônicas. É muito importante pensar maneiras mais eficazes de acessar essa população, que parece estar à margem da política de acesso universal, concluiu Monica.

Foto da capa: Agência AIDS

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